Adulta ou criança? O que o amadurecimento precoce provoca nas nossas meninas

Numa sala com 4 meninas brincando de boneca, eu observo a criatividade da brincadeira e como as meninas parecem entrar em outro mundo com suas respectivas personagens. Em um momento, eu olho para a mais velha e a pergunto “Gabriela, quantos anos você tem?”. A feição da menina muda na mesma hora para uma expressão decepcionada – ela solta a boneca, se levanta, me responde “tenho 9” e sai da sala. Sem entender o que houve, eu pergunto “o que aconteceu?” para uma das meninas, que me responde: “Ela não gosta que perguntem a idade dela, falam que ela já é velha pra brincar de boneca”.

Frases como “você já é velha demais pra isso” ou “você já tem idade para entender o que está fazendo” são recorrentes na vida de uma criança ou adolescente em formação. Como se fosse um dever durante a vida toda, meninas são encarregadas de serem mais maduras independente da situação ou idade, e junto com a carga há uma lista de competências a serem cumpridas: elas precisam ser mais espertas, mais vaidosas, mais cuidadosas, mais dedicadas, mais sensíveis.

Arte: Tangjiao990

O ponto a que quero chegar é que desde pequenas as meninas são cobradas a agirem como gente grande, desde sentar com as perninhas cruzadas até acordar às sete horas da manhã para cuidar da irmã mais nova, e isso é visto como uma normalidade tão grande, que o que resta a uma criança cujas exigências são impostas é a resignação. O que deve ser feito é deixar a boneca no chão e ir prestar ajuda para a mãe no almoço do domingo enquanto o irmão brinca de super herói. Sair desse caminho já imposto desde o berço é visto como rebeldia, que acaba sendo culpa da mãe – como se fosse uma obrigação uma mulher criar outra para ser subordinada – afinal, já é esperado que uma menina na faixa de 10 anos deixe de lado as bonecas para aflorar vontades mais “femininas”, como aprender alguma dança, saber se maquiar, cozinhar, etc.

Meninas raramente são ensinadas desde cedo a consertar um utensílio, pilotar aviões ou discursar para um povo. Elas são designadas a terem preocupações com o corpo, planejarem a vida aos 18 anos, cuidar das crianças e serem boas esposas. Precisamos substituir a imposição de responsabilidade por um leque de possibilidades.

A criação de deveres para a vida está estragando a própria vida: estamos colocando nossas meninas em relacionamentos abusivos, doenças físicas e psicológicas, na aceitação do insuficiente, e fora da faculdade, do mercado de trabalho, do amor próprio.

Enquanto uma garota não puder ter a liberdade de errar, ela não saberá agir com o que está errado – e ainda assim precisará descobrir como manter-se calma, serena e madura.

No fim, eu procurei Gabriela para pedir desculpas e chamá-la para voltar pra sala (ela estava na cozinha com a tia, ouvindo as conversas) e ela não pensou duas vezes na hora de me acompanhar. Quando voltamos, a nova brincadeira era construir coisas com massinha de modelar, e eu a ajudei a fazer coisas para uma padaria. Talvez eu não seja tão velha quanto pensava.

 

Eduarda Souza