Anticoncepcional: até que ponto é escolha ou imposição?

 Conversamos com mulheres sobre suas experiências com o uso do anticoncepcional na busca de entender como é a relação delas com o método.

 

Nunca antes se falou tanto sobre anticoncepcional masculino. Apesar da pílula anticoncepcional feminina ter surgido em 1960, a masculina vem mostrando sinais de ser lançada no mercado, cerca de 50 anos depois. O questionamento que tem sido feito sobre o medicamento é quanto aos efeitos colaterais que ele pode vir a apresentar, motivo de reclamação de muitos homens. No entanto, o anticoncepcional feminino foi liberado mesmo com efeitos colaterais graves, como o risco de trombose venosa e AVC, que boa parte das mulheres desconheciam.

A  maioria das mulheres, ao buscarem um método contraceptivo, são apresentadas diretamente ao anticoncepcional hormonal. Este é receitado boa parte das vezes sem uma explicação sobre o método, sem que se faça o menor estudo do caso daquela mulher, ou que se tenha qualquer outro tipo de cautela.

Conversei com a minha ginecologista sobre meu receio em tomar anticoncepcional e ela achou um absurdo, comparou o não uso a viver na idade da pedra e me disse para usá-lo sem sequer me pedir qualquer exame e sem mencionar nenhum dos efeitos colaterais.”
Paola Oliveira, 30 anos

“Na época não questionava ainda se existiam outros métodos ou, mesmo que eu soubesse, o quanto eles poderiam me fazer mal se não fossem adequados para mim. Não fiz exame algum pra começar a tomar, simplesmente me foi receitado por um ginecologista do SUS.”
Jiuliane Folador, 21 anos.

Um atendimento ginecológico ineficiente influencia muito para que não tenhamos conhecimento e controle do nosso próprio corpo. É importante que possamos confiar em um profissional e ele possa tirar nossas dúvidas, explicar como os hormônios funcionam no nosso corpo, nos dar opções além da pílula e nos aconselhar, com base no nosso histórico, qual o melhor método e marca para o nosso organismo. Por isso, a escolha de um bom profissional é muito importante. Infelizmente, nem sempre é simples encontrar um bom ginecologista e as chances caem ainda mais para quem não pode pagar por um, afetando diretamente as mulheres pobres.

Foto: Reprodução/BemSaúde

“Fui ao ginecologista, e ele me perguntou quantos anos eu tinha, respondi que tinha 18. Então ele me perguntou se eu já tomava anticoncepcional e eu disse que não, ele me respondeu: “então já está na hora de tomar, não é mesmo?”. Me senti pressionada a tomar.”
Livia Pronko, 21 anos.

 

Outra questão que dificulta o acesso aos anticoncepcionais pelas mulheres com menor condição financeira é o preço dos remédios, muitas vezes bem elevados. As vezes trocar por genéricos resolve a questão, mas e quem não pode pagar nem pelo genérico? E se o melhor remédio para aquela mulher for um pelo qual ela não pode pagar?

 

“A médica me deu meu primeiro anticoncepcional de uma marca bem cara na época, assim que acabaram as caixinhas que ela me deu, tentei mais umas 2 ou 3 marcas mais baratas, mas não me adaptei.”
Ana Gutierrez, 22 anos.

 

Entre os efeitos colaterais mais sentidos pelas mulheres estão a desregulação do humor, predisposição a casos de depressão, dores de cabeça fortes e a perda de libido. Vale lembrar que o uso desses medicamentos não são apenas recomendados como método contraceptivo, muitas vezes eles são receitados para resolver problemas como cólicas e sintomas da TPM.

 

“Tenho alterações extremas de humor durante o período menstrual. Muita tristeza, ansiedade, choro, de um modo que começou a me prejudicar.”
Karina Pavan, 20 anos.

“Minha libido praticamente não existia mais.”
Ana Villar, 28 anos.

Segundo o ginecologista Dr. Renato Abreu Filho, os efeitos colaterais dos anticoncepcionais hormonais estão relacionados à sua própria composição a base de hormônios, que alteram o ciclo fisiológico da mulher. Nisso se inclui por exemplo os períodos em que a libido naturalmente fica mais exacerbada, os efeitos diretos deste tipo de composto sobre o metabolismo das gorduras e dos líquidos, com retenção hídrica e ganho de peso. Ele ressalta ainda que a dosagem hormonal, o tipo de hormônio e a via de administração influenciam muito nos efeitos colaterais. Assim, utilizando-se dosagens mais baixas ou a via transdérmica por exemplo, pode-se minimizar estes efeitos.

Quando questionado sobre os casos de trombose e AVC o médico afirmou que há grupos de risco que deveriam evitar o uso de medicamentos hormonais, como mulheres fumantes, obesas e sedentárias, e lembrou: “Uma boa conversa com o ginecologista, onde possam ser explanados os riscos envolvidos, bem como a melhor maneira de contorná-los, é um bom caminho para se evitar danos futuros.”.

Foto: Dimas Toledo

Abandonei o anticoncepcional. E agora para me proteger?

Quando o assunto é métodos contraceptivos que não envolvem hormônios, segundo o Dr Renato, nem sempre eles são tão práticos, como no caso do diafragma, associado ou não a espermaticidas, ou o preservativo feminino. No entanto, há alguns bastante eficazes, como os dispositivos intra-uterinos (DIU), que apesar da presença de hormônio, praticamente não é absorvido pelo organismo. O DIU tem eficácia semelhante aos métodos cirúrgicos como a laqueadura tubária ou a vasectomia, métodos que são considerados definitivos e por isso devem ser escolhidos após “exaustiva orientação por parte dos profissionais de saúde”, aconselha o médico.

 

Quando questionadas sobre os métodos mais utilizados em alternativa ao anticoncepcional, as mulheres mencionaram a camisinha, o DIU de cobre (não hormonal), a tabelinha e o coito interrompido. O que mais as motiva a abandonar o método são os efeitos colaterais e a vontade de deixar de usar hormônios para levar uma vida mais natural e de autoconhecimento corporal.

“Tem 3 meses que estou sem anticoncepcional e sinto que minha libido aumentou. Inclusive estou tendo sonhos que nunca tive… Sonhos eróticos! E até então isso era raro em minha vida. Estou me sentindo mais viva! Mais mulher. Acredito que o anticoncepcional continha minha ovulação e instintos.”
Carolina Saraiva, 35 anos

 

Helena Saldanha, de 26 anos, conta que não menstruava havia mais de um ano e logo que parou de tomar o AC, seu ciclo voltou ao normal. “Aquilo mexeu muito comigo, chorei, senti aquilo como um ‘dessufocamento’ do meu corpo após tanto tempo amarrado, sem poder funcionar naturalmente… Acreditava que dor de cabeça, humor deprimido e oscilações de humor faziam parte de mim. Mas, ao parar com a pílula, esses sintomas SUMIRAM! Me sinto muito mais conectada ao meu corpo, aos sinais que ele dá, ao meu lado feminino e fértil.”.

Foto: henn kim

Ela explica também como se previne de uma gravidez indesejada sem o uso de hormônios. Hoje uso dois aplicativos (Kindara e Clue) para fazer o método sintotermal (meço a minha temperatura sublingual todas as manhãs ao acordar, e observo o muco cervical) e intercalo uso de camisinha e coito interrompido, que variam de acordo com a percepção que tenho do ciclo. Se acho que estou mais fértil, uso a camisinha (masculina). Se não, coito interrompido sem camisinha”.

Para quem é vegana, o uso do ac também é um problema, como conta Nathalia Constantin, de 23 anos. “Nunca tomei porque sou vegana e ac é feito de hormônio de vaca, além de ter medo dos efeitos colaterais. Quanto a método contraceptivo, eu e meu companheiro não priorizamos penetração. Associamos isso à tabelinha (nunca tive irregularidades absurdas nos meus ciclos) e tem dado certo”. 

 

É importante ressaltar no entanto, que a tabelinha e o coito interrompido não têm sua eficácia reconhecida cientificamente. A questão é avaliar como somos induzidas a métodos severos que não consideram nossa saúde e bem estar. Precisamos começar a questionar esses métodos, buscar mais informações e pressionar o meio científico a criar novos métodos, mais seguros e que levem em conta o nosso bem estar.

 

Como lembra o Dr. Renato: “É fato que há riscos envolvidos, mas também é fato que há algum alarmismo, disputas comerciais, de mercado e questões financeiras envolvidas. Este é um mercado que gira bilhões de dólares ao redor do mundo e há muitos interesses em jogo”, diz.

 

É importante encontrar um bom profissional e ter consciência de que nem sempre o primeiro a nos atender será confiável. Precisamos buscar pontos de vistas diferentes e conhecer nossos próprios corpos. O método contraceptivo deve ser uma escolha saudável e não uma imposição social.

 

Giovanna Castro