Câncer de mama não vê cor? Mulheres negras têm mais chances de desenvolver a doença

Além de tabu, o câncer de mama é cercado de mitos. Além disso, mulheres negras têm mais chances de desenvolver a doença antes dos 40

Todos os anos, durante o conhecido mês de outubro, as avenidas, monumentos e propagandas de TV são tomadas por luzes e enfeites cor de rosa. É o sinal de que o Outubro Rosa chegou. A campanha, criada em 1990 em Nova York tem o objetivo de conscientizar mulheres do mundo todo a fazer exames de rotina para auxiliar na prevenção do câncer de mama. Jornais e programas de TV costumam divulgar um método simples para se prevenir do câncer: a realização mensal do auto exame e anual da mamografia. No entanto, estas recomendações tem sido cada vez mais questionadas.

A controversa mamografia

O mais comum e que inclusive é lei no Brasil, é a realização a cada dois anos de mamografia para mulheres do grupo de risco, isto é, que tenham entre 50 e 69 anos de idade. A recomendação do Ministério da Saúde segue os padrões de saúde pública do Reino Unido, Bélgica, Suíça e outros países europeus, mas diverge de pesquisas recentes realizadas no Canadá e nos Estados Unidos. A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda a realização anual de mamografia a partir dos 40 anos de idade, já que segundo a entidade, 25% dos diagnósticos de câncer no Brasil acontece em pacientes nessa faixa etária. A controvérsia existe porque, embora seja pouco divulgado, o exame também oferece risco às pacientes como exposição à radiação, biópsias desnecessárias, além de apresentar elevados índices de sobrediagnóstico (quando a doença não precisa ser tratada com radio ou quimioterapia para regredir).

Para acrescentar ainda mais incógnitas à essa equação, em 2014 um estudo publicado no Canadá revelou que, ao contrário do que se imaginava, a mamografia anual não interfere na redução da mortalidade por câncer de mama. A pesquisa realizada com 90 mil mulheres entre 40 e 59 anos, indicou que o exame clínico e a radiografia das mamas tem o mesmo percentual de acertos sobre os diagnósticos de câncer. As voluntárias foram separadas em dois grupos que foram acompanhados pelos pesquisadores durante 25 anos. Em um dos grupos as mulheres realizaram mamografias anuais e no outro, apenas o exame clínico no consultório médico, e os resultados são muito parecidos! Entre as mulheres que fizeram mamografia, 3.250 foram diagnosticadas com a doença e entre aquelas que faziam apenas o exame clínico, 3.133 casos foram notificados.

 

A doença escolhe alvo?

Charô Nunes, escritora e coordenadora do Blogueiras Negras também foi diagnosticada com câncer de mama. Pesou sobre ela o estereótipo da mulher negra ser mais forte e resistente à dor. Após casos na família, incluindo parentes que faleceram em função da doença, a escritora passou a se prevenir e fazer exames de rotina. No entanto, “os médicos diziam que câncer não dói e que eu estava ansiosa, impressionada demais com as mortes de minha família”, contou em relato no blog que administra. “Gastei um ano correndo atrás de mastologistas até que fosse corretamente diagnosticada. Tive de persistir e insistir até que me fosse prescrita uma mamografia digital, que eu nem sabia que existia”, afirma.

As mamografias convencionais não eram suficientes para detectar o tumor na mama de Charô, embora as queixas sobre as dores fossem frequentes. Isso porque, por conta da estrutura da pele, o seio da mulher negra é mais denso e os seios mais densos são examinados mais minuciosamente com exames digitais. Além disso, as mulheres negras tendem a ter alterações genéticas que favorecem o aparecimento do câncer de mama antes dos 40 anos de idade, como no caso de Charô. As mulheres negras também estão mais sujeitas ao surgimento do câncer triplo-negativo, mais agressivo, difícil de identificar e que pode se espalhar com mais facilidade pelo corpo.

A notícia é fruto do estudo “Jewels in our Genes” realizado entre 2009 e 2011 na Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos. A pesquisa identificou as anomalias genéticas no DNA de 106 famílias de afrodescentes americanos, entre elas a existência dos genes BRCA1 e BRCA2, conhecidos por aumentar a incidência de câncer de mama nas mulheres. Entre as 179 mulheres negras diagnosticadas com câncer de mama, apenas 76 de suas irmãs nunca apresentaram a doença, isso significa que além de atingir estas mulheres, o câncer também se espalhou com rapidez pela família.

Fotografia: Helemozão Fotopoesia/Produção: ONG GINA/Arte Gráfica: Gabriel Nascimento — com Dai Costa.

No Brasil, ainda não foram publicados estudos recentes com o recorte racial, mas pesquisas realizadas no sul do país no início dos anos 2000 indicam que apenas 43,7% das mulheres negras da região fizeram mamografia enquanto 53,4% das mulheres brancas fizeram o mesmo exame no mesmo período.

Mas por quê essa diferença?

A jornalista Vera Golik, uma das idealizadoras do projeto “De peito aberto” de sensibilização e humanização no trato de sobreviventes de câncer de mama, acredita que as mulheres negras e pobres são as que mais sofrem com a falta de informação e com tratamento tardio da doença. “Normalmente são mulheres que dependem do SUS para ser atendidas e diagnosticadas, porque muitas vezes as campanhas de prevenção não chegam até elas, não recebem instrução sobre como fazer corretamente o auto exame ou porque não sabem da existência da mamografia, por exemplo”, diz.

FOTOGRAFIA: HELEMOZÃO FOTOPOESIA/PRODUÇÃO: ONG GINA

A decisão da mastectomia

Dona Wilma Guimarães, de 55 anos, é negra e professora aposentada da baixada santista em São Paulo e em 2010 foi diagnosticada com câncer de mama. Ela conta que apesar das campanhas de conscientização, achou engraçado o fato de uma das mamas vazar um líquido branco, já que tinha uma idade avançada para estar grávida. “Brinquei com o médico dizendo que seria mãe de novo e ele ficou preocupado. Fizemos os exames e detectamos que estava com um câncer ductal, com mais chances de cura”, conta.

Após 28 sessões de quimio e 8 de radioterapia Dona Wilma optou por realizar a mastectomia total, isto é, retirou completamente a mama onde havia o tumor. Meses após a cirurgia, outros sintomas de câncer apareceram na mama sadia. Ela conta que sempre teve propensão a queloides e o seio denso, por isso notou quando a pele da mama sadia passou por mudanças. “A pele estava feia, com aspecto de laranja, toda enrugada”, conta. A professora passou novamente por cirurgia, reconstruiu a mama e os mamilos no SUS e hoje, Dona Wilma que é assistida pelo Instituto NeoMama em Santos pratica remo na baixada, como forma de divulgar informações sobre a doença e mostrar que a cura é possível. Para ela, uma dos momentos mais difíceis do tratamento foi raspar a cabeça por conta da queda de cabelos durante a quimioterapia.

“Esse é o momento em que as mulheres sentem que perdem a feminilidade por conta de uma doença que as pune justamente por ser mulheres”, de acordo com Vera Golik. “Hoje eu tô bem, me cuido e acho que a vida tem que ser curtida como se não houvesse amanhã. Mas se eu não reagisse, saísse de casa, fizesse minhas coisas e conversasse com as pessoas na época, eu ia morrer de depressão e não da doença”, afirma Dona Wilma.

Diagnosticada aos 49 anos, negra e usuária do sistema de saúde público a professora Wilma estava dentro do grupo de risco brasileiro. “A gente que é mulher passa a vida toda se preocupando com o trabalho, com os filhos, com a família e esquece de cuidar da gente, sabe? É importante conscientizar as mulheres de que elas tem que prestar mais atenção na própria saúde”, avisa dona Wilma. “Pode acreditar que no dia 1 de novembro, ninguém mais vai falar sobre câncer de mama… Mas, olha, não precisa ser aquelas reportagens imensas, aqueles programas todos, as propagandas todas, nada disso. Só um lembrete para ir ao médico todo ano e fazer auto exame já serve pra lembrar disso de vez em quando”, afirma.

Infográfico: Keytyane Medeiros
Keytyane Medeiros