Como a ciência abriu caminho para a reprodução sem homens

Por Helena Botelho

Técnica permite criar esperma feminino e óvulo masculino

Muitos rotulam a homossexualidade como imprópria afirmando que “dois iguais não geram filhos”.
Essa ideia, no entanto, vem sendo cada vez mais questionada. 
A ciência tem trilhado um novo rumo para a reprodução: cientistas britânicos da Universidade de NewCastle desenvolveram uma técnica de criação de gametas (células sexuais) a partir de células tronco, o que tornará possível, no futuro, a reprodução entre seres do mesmo sexo. Ainda não há confirmação sobre a reprodução humana, mas os estudos seguem essa direção. A pesquisa se espalhou por outros centros de ciência, como a Universidade de Kyoto, no Japão, e já chegou ao Brasil, no Instituto Butantan, em São Paulo. Embora a descoberta ainda esteja passando por testes, foi comemorada pela comunidade acadêmica.

Na Universidade de Kyoto, a experiência realizada pelo pesquisador Katsuhiko Hayashi foi feita em camundongos e trouxe bons resultados. De forma resumida, há a extração de células tronco de embriões em estágio inicial e de células somáticas (não sexuais). Elas são convertidas em células germinativas primordiais (CGP) por meio de “moléculas sinalizadoras” e transplantadas para ovários e testículos de camundongos vivos. Esses ambientes tornam possível o desenvolvimento das células. Após sua maturação, são extraídas e usadas para fertilização in vitro.

A pesquisa de gametas é interessante, mas ainda está no início. (Foto: Net Geo)

Apesar do entusiasmo de alguns pesquisadores, a bióloga Juliana Alencar, da UNESP, mostra pouco otimismo em relação à pesquisa: Esse tipo de pesquisa é de extrema importância, contudo sobre células tronco ainda existem muitas especulações. A oogenese [processo biológico de formação das células reprodutoras femininas] humana é complexa, o que pode também pode atrapalhar o progresso nessa vertente”.

“Supremacia” feminina

Em um cenário ideal, sendo possíveis todas as etapas, a transformação dos gametas e a fertilização in vitro seriam semelhantes tanto para casais gays quanto para casais lésbicos. No entanto, no próximo passo, o caminho é mais simples para elas: enquanto os homens necessitariam de uma mulher para gerir o feto em seu útero ou de um útero artificial, que ainda está em fase de testes, as mulheres precisariam apenas decidir qual delas cederia seu útero para o desenvolvimento do feto.

Outro aspecto notável nas diferenças entre homens e mulheres neste caso é a geração de descendentes que viria de cada tipo de casal. Homens apresentam cromossomos sexuais XY e mulheres, XX. Então, em fertilizações com células iniciais vindas de dois homens, as quatro combinações genéticas básicas seriam: dois descendentes XY (masculino), um XX (feminino) e um YY, que não apresentaria condições de viver. Já em fertilizações com células femininas, todos os descendentes carregariam na genética os cromossomos XX, sendo portanto todos do sexo feminino. Em linhas gerais, homens ainda precisariam de mulheres e ainda gerariam descendentes do sexo feminino; já as mulheres só precisariam de si mesmas e só gerariam descendentes do sexo feminino. Seria o início de uma supremacia feminina?

Os entraves da ciência

Embora as especulações sejam sedutoras, é necessário ter os pés no chão. Mesmo que a teoria se comprove, é necessário ter atenção à dificuldade de acesso. Alencar acrescenta: “Com relação ao acesso, acredito que assim como o mapeamento genético, a própria fertilização in vitro e tecnologias relacionadas, pessoas com grande poder aquisitivo é quem terão livre acesso”.

Após os experimentos com camundongos, o próximo passo é o teste em macacos para só depois chegar a cobaias humanas. Todo este processo é bastante complexo e levará anos até resultar em filhos biológicos de duas mães ou dois pais e em tratamentos contra a infertilidade.

LEIA TAMBÉM 

Helena Botelho