Depressão de todas as cores: como essa doença machuca os gêneros

A depressão é vista como uma doença feminina, mas isso não significa que os outros gêneros não sejam afetados.

Imagine que você está em uma festa com amigos queridos, a música está boa, a bebida também, estão todos se divertindo – inclusive você – mas, de repente, você sente algo subindo pelo seu pé, não é nada físico, apenas uma sensação ruim. Você sente uma enorme sombra subindo pelos seus calcanhares e faz de tudo para continuar dançando e espantá-la, mas não consegue. Quando vê, a sombra já te englobou e você está sufocando. Mas ninguém ao seu redor enxerga isso. A festa já acabou, já é segunda-feira e a sombra ainda está ali, te sufocando. O peso é insuportável. Você entra em desespero. Precisa sair dali de qualquer maneira, mas não tem ideia de como fazer isso. Alguns desistem e deixam a sombra tomar conta, outros lutam até o fim e ainda assim sucumbem, há aqueles que conseguem cortar a sombra aos poucos. Nenhuma dessas situações é fácil. Como você se sairia no lugar da pessoa encarcerada pela sombra?

 

Milhões de brasileiros já estiveram (ou ainda estão) lá, presos na sombra. O pequeno texto acima é uma das muitas formas de descrever a depressão: algo escuro, frio e sufocante. E está o tempo inteiro com você. Se você é um homem cisgênero não pode pedir ajuda para se salvar, porque isso é coisa de “marica”. Se você é uma mulher cisgênera, você está exagerando, provavelmente é só TPM. Se você é uma pessoa trans, você deveria tentar ser “normal” e tudo iria passar. Nenhum gênero está imune à depressão. Para ninguém é fácil, mas gêneros diferentes sofrem opressões diferentes e isso afeta e muito aos diagnosticados com doenças psíquicas como a depressão.

 

“A concepção de que mulheres são naturalmente mais frágeis e sensíveis e homens são fortes e não emotivos foi construída de forma sócio histórica, sendo uma definição naturalizada na nossa sociedade. Esta ideia reflete diretamente no fato em como homens e mulheres lidam com a depressão”, explica a psicóloga Thaís Borges.

 

O produtor audiovisual Luiz Moraes, diagnosticado com depressão há um ano, é um homem cisgênero e heterossexual, e conta que é “muito ‘favorecido’, perante a sociedade, por me identificar com o gênero atribuído desde o momento de meu nascimento, mas por outro lado, em um processo depressivo algumas situações são atribuídas socialmente a um gênero diferente do meu, o feminino”. E exemplifica: “o gênero masculino faz com que a sociedade cobre de você mais virilidade, o que em estado de depressão dificilmente é conseguido”.

 

A jornalista Mariana Amud, mulher cisgênera e heterossexual, diagnosticada com depressão há sete meses, traz outro relato. “Hoje consigo enxergar quanto essas pressões me afetaram antigamente, como ser mulher e não poder namorar ou levar namorado para casa, enquanto meu irmão mais velho sempre se orgulhou de mostrar as várias meninas com quem namorava e as trazia para casa; ou pelo fato de não poder beber em reuniões familiares, porque não é bonito que mulheres bebam, pequenas coisas que fizeram com que eu me tornasse uma pessoa frágil e me sentindo incapaz de me desenvolver socialmente”, relata. Para Olga Barbosa, designer de moda e mulher trans, diagnosticada com depressão há sete anos, o fato de ser trans piora ainda mais sua saúde mental. “É muito difícil lidar com o fato de ser ‘o animal mais exótico do zoológico’ e ter que lidar com tudo isso, com todas essas pessoas”, desabafa.

 

Foto: Sholto Ramsay

350 milhões

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão atinja cerca de 350 milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo um estudo da revista médica The Lancenet (disponível em inglês), 60% da população trans mundial sofre com depressão.

Segundo o IBGE são 11 milhões de brasileiros acometidos pela doença. Um estudo (disponível em inglês) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) concluiu que as mulheres têm duas vezes mais chances de desenvolver a doença do que os homens.

 

Mas esses dados podem estar muito longe da realidade já que muitas pessoas, principalmente homens cis e pessoas trans, não recorrem ao serviço de saúde por medo ou vergonha; no primeiro caso medo de serem taxados de fracos e no segundo da discriminação. Segundo a psicóloga Barbara Pina, “os homens têm uma resistência muito grande em procurar um cuidado profissional, em falar de suas questões e angústias. Sofrem mais calados. Tem muito a ver com as expectativas sociais, de que o homem tem que ser forte, provedor, não pode chorar etc.”.

 

Ela também acredita que “as cobranças sociais são ainda maiores para as pessoas trans. Existe um questionamento a todo o momento sobre o gênero, a orientação sexual, as escolhas que a pessoa vai fazendo, o tempo todo ela está exposta, tendo que se deparar com a curiosidade e o preconceito”.

 

Outro fator para que a maioria dos diagnosticados com depressão sejam mulheres é que “a mulher tem menos resistência em se cuidar, até porque ela tem que cuidar da casa, da família, dar conta do trabalho, ela tem medo de adoecer e não conseguir mais fazer suas atividades. Então ela adoece e muitas vezes recorre à ajuda porque quer melhorar para poder continuar dando conta da sua rotina”, pontua a psicóloga Thaís.

Foto: Gloria Willians

Discriminação

A transexualidade ainda é considerada uma doença pela OMS e ainda consta no Manual de Diagnóstico e Estatísticas das Doenças Mentais (DSM-5), o que torna ainda mais real a possibilidade de discriminação por profissionais da saúde. “Sem dúvida o preconceito é uma importante barreira para as pessoas trans, considerando aqueles que optam pelo tratamento hormonal e cirúrgico que hoje é oferecido pelo SUS, passam por um processo para dizer o mínimo, difícil. Claro que precisa averiguar todas as alternativas, uma mudança tão drástica no corpo pode levar a consequências sérias, mas o processo poderia ser feito com mais delicadeza”, argumenta a psicóloga Barbara Pires.

 

Olga faz tratamento hormonal e já foi atendida no SUS. “Já me senti discriminada, mas também teve muitas vezes em que não fui. Muitas vezes é apenas falta de conhecimento, se tem funcionários da saúde que não sabem trocar um leito hospitalar, imagina o que sabem sobre identidade de gênero”, revela.

 

“O papel do psicólogo é fundamental para auxiliar pessoas trans que enfrentam tais problemas na sociedade, além de ser indispensável em casos de cirurgias para mudança de genital, sendo necessário acompanhamento mínimo de dois anos. É importante que o psicólogo tenha um papel de auxiliador e não veja a transexualidade como patologia”, comenta a psicóloga Thaís.

Foto: Aaron Mello

Apoio para todos

Seja qual for o gênero da pessoa em estado de depressão, o apoio das pessoas próximas, além do tratamento com profissionais da saúde é importantíssimo para a recuperação do doente. “É importante também lembrarmos que a depressão pode se manifestar de diversas formas e com diversos sintomas diferentes em cada pessoa, independentemente do sexo ou gênero”, alerta Thaís.

Para Barbara Pina, “nos dois casos a depressão tem a ver com impotência, com culpa. O que difere para mim são as instâncias dessa impotência”. Assim como os homens precisam repensar o papel de provedor, para ela existe “todo um trabalho de reconhecer que a mulher não precisa se sentir culpada por não dar conta de tudo, porque não é para ela dar conta de tudo!”.

Para Luiz, “os depressivos precisam de mais apoio social e, principalmente, respeito, assim como a sociedade necessita se informar mais sobre o diagnóstico, urgentemente”.

 

Isis Rangel