Mulher-Maravilha e o começo de uma nova era da representação feminina na ficção

Entenda como a super-heroína mais famosa dos quadrinhos é um exemplo de representatividade para as mulheres (apesar das controvérsias)

Por Monique Nascimento 

Mulher-Maravilha está nos cinemas há algumas semanas e desde então a internet não fala em outra coisa. Bem recebido pela crítica, o longa conta com 92% de aprovação no site de crítica especializada Rotten Tomatoes e coleciona boas resenhas e elogios.

A opinião do público parece acompanhar a dos críticos. Com uma semana em exibição, o filme ultrapassou a marca de U$436 milhões em bilheteria ao redor do mundo, dos quais 100 milhões foram arrecadados somente no primeiro fim de semana dentro do cenário doméstico, que inclui EUA e Canadá.

Esses números também trazem marcas históricas para o longa. Antes mesmo de estrear, o orçamento do longa já era um marco. Patty Jenkins é a segunda mulher a dirigir um filme com orçamento de US$100 milhões ou mais, ficando logo depois de Katheryn Bigelow com K-19: The Widowmaker (2002). Enquanto isso, Batman vs Superman contou com orçamento de U$250 milhões, segundo Box Office Mojo, apesar de muitos sites terem noticiado a marca de U$400 milhões. Percebam a diferença.

Mulher-Maravilha também alcançou o posto de melhor estreia de filme dirigido por uma mulher, superando “Cinquenta Tons de Cinza”, dirigido por Sam Taylor-Johnson, com U$93 milhões. E Patty Jenkins não é uma diretora qualquer. Esteve por trás do elogiado “Monster: Desejo Assassino”, filme pelo qual Charlize Theron ganhou o Oscar de melhor atriz.

O sucesso de Mulher-Maravilha foi um grande alívio para muitos fãs, até então receosos devido ao mal desempenho da DC no cinema com “Batman vs Superman” e “Esquadrão Suicida”.

As tentativas anteriores de filmes com super-heroínas, como Mulher-Gato (2004) e Elektra (2005), e a inicial rejeição da atriz Gal Gadot para o papel também contribuíram para o pessimismo em relação ao longa da amazona. Somado a isso, o peso de ser o primeiro filme solo da super-heroína contribuiu para um cenário de cautela, mas também de altas expectativas do público. Especialmente o feminino.

A pergunta que não quer calar é: Mulher-Maravilha é uma heroína feminista? A personagem é bom exemplo de representatividade feminina na ficção?

A polêmica do fim do ano passado envolvendo a nomeação da guerreira amazona para o cargo de embaixadora honorária da ONU pelo empoderamento de mulheres e meninas acendeu esse debate. Após a revelação de que a heroína ocuparia o cargo, funcionários da organização se manifestaram contra a decisão e uma petição online assinada por quase 45 mil pessoas dizia que “a realidade é que a representação atual da personagem é de uma mulher branca de seios grandes, com proporções impossíveis” e “explicitamente sexualizada”.

Há quem concorde com esse argumento. Há algo de verdade nessas preocupações. Não podemos ter nossos poucos exemplos de representatividade dentro dos quadrinhos ou do cinema apenas como personagens brancas, magras e em conformidade com os padrões vigentes, simplesmente porque as mulheres não são todas assim. Na verdade, uma porção bem pequena é.

Porém, isso não descredita Diana como um desses exemplos de representatividade. Vem ver porquê.

“Não é disso que se trata, afinal?”

Nos quadrinhos

A Mulher-Maravilha é um dos personagens mais icônicos e importantes da DC Comics, formando a trindade com Superman e Batman. Sua primeira história foi publicada nas páginas de All Stars Comics #8, no final de 1941. Criada para fazer frente ao Capitão América, herói patriota da Marvel que estava arrasando nas vendas, a amazona logo conseguiu sua revista própria em 1942. Mas Diana tinha um propósito maior do que acender o espírito americano em tempos de guerra.

Criação de William Moulton Marston, a heroína tem fortes ideais feministas nas bases de sua concepção. Marston era um psicólogo e pesquisador, um dos responsáveis pela invenção do polígrafo, o “detector de mentiras”. Em seus experimentos, constatou que as mulheres mentiam menos e eram mais verdadeiras quando submetidas aos testes da máquina. Isso o fez acreditar que as mulheres seriam mais aptas a governar o mundo em direção à paz e ao entendimento. Marston chegou a essas conclusões também devido ao seu contato direto com a luta sufragista e feminista de modo geral, sendo ligado a figuras como Margaret Sanger e Ethel Byrne, ativistas famosas pelo controle de natalidade e direitos das mulheres.

Poliamorista, dividia o teto com duas esposas. Uma delas, Elizabeth Marston, foi quem deu a ideia de criar uma heroína e não um herói. Elizabeth era extremamente à frente de seu tempo. Com graduação em direito e psicologia, algo extremamente incomum na época, Elizabeth foi quem sustentou o lar enquanto William perseguia uma carreira nos quadrinhos e Olive Byrne, a outra esposa, cuidava da casa e dos filhos. Marston tinha inspiração o suficiente ao seu redor para dar vida à heroína.

A história

Resumindo sua origem, a Mulher-Maravilha é uma princesa amazona da ilha de Themyscira (ou Ilha Paraíso), filha da rainha Hipólita. A ilha é isolada do resto do mundo, mas um dia o avião do soldado Steve Trevor cai acidentalmente no território das amazonas. Hipólita ordena que um torneio seja feito para escolher a amazona mais apta a escoltar Trevor de volta ao mundo dos homens. Diana compete disfarçada, contrariando as ordens da mãe, e ganha. Então, ambos vão aos Estados Unidos, Diana agora na posição de embaixadora para lutar pela paz, justiça e direitos das mulheres. Um approach mais pacifista e menos “Deusa da Guerra sangue nos olhos” como vimos em suas histórias mais recentes. Mas nunca submissa a nenhum homem. A personagem nunca se assumiu feminista nas histórias, pois de onde vem esse conceito sequer existe (assim como conceito de casamento gay).

 

“Você é maravilhosa, anjo! Se ao menos você se casasse comigo – !” “Se eu me casasse com você, Steve, eu teria que fingir que sou mais fraca que você para fazê-lo feliz – e isso nenhuma mulher deveria fazer!”. VRÁ!
“Clark, meu país só tem mulheres. Para nós, não é ‘casamento gay’, e sim apenas ‘casamento'”.

 

Marston morre em decorrência de um câncer de pele em 1947 e sua última história da amazona é publicada em 1948. Depois disso, muita coisa [ruim] acontece nas histórias da heroína. O tom feminista de suas aventuras é deixado de lado. A amazona vira secretária da Sociedade da Justiça. Histórias mais inclinadas ao romance começam a ser publicadas e ela até perde seus poderes e seu uniforme, torna-se dona de uma boutique de roupas que aprende artes marciais com um mestre cego chamado I Ching e luta contra o crime numa vibe mais detetive psicodélica dos anos 1960. Pois é.

 

“Mulher-Maravilha, os membros do Batalhão da Justiça acham que mesmo sendo você sendo um membro honorário, nós gostaríamos que você se tornasse nossa secretária!”
“Por que – É uma honra!”

 

A posição de secretária é inclusive ironizada no longa. Quando Diana é apresentada a Etta Candy, secretária de Steve Trevor, e ao ser ela mesma apresentada por ele dessa forma a outros homens. Essa seria a única forma de justificar sua presença ali, apontando o quanto a sociedade não permitia a presença de mulheres em esferas de poder.

 

 

Seu retorno como ícone ligado ao movimento feminista veio na década de 1970 com a capa histórica do primeiro volume da Ms. Magazine, da qual Gloria Steinem, um dos grandes nomes do movimento feminista, era editora. Mas nos quadrinhos, seu retorno triunfal veio na década de 1980, com o resgate feito pelo roteirista George Perez.

Não é preciso analisar os 75 anos de existência da princesa das amazonas para notar que um personagem é o que se faz dele. Tanto para o bem quanto para o mal. Em uma indústria machista como a dos quadrinhos de super-heróis, inserida em uma sociedade patriarcal, era de se esperar que uma personagem feminina fosse sexualizada, tivesse sua história e complexidade diminuídas e não respeitadas entre outras coisas. Muito do que foi feito com a Mulher-Maravilha é o que é feito diariamente com mulheres reais. Condenar a personagem por conta de erros da DC Comics é reduzir o potencial de representatividade que ela carrega.

No filme

Não vou entrar em muitos detalhes sobre o enredo do longa, que basicamente segue sua origem nos quadrinhos. O foco aqui é discutirmos a forma como a personagem e seu universo são construídos na trama e em como isso gera representatividade.

Mesmo sendo a heroína mais famosa dos quadrinhos, sua história ainda era desconhecida para o público geral. Ao contrário de Batman e Superman, com seus muitos filmes e séries que contaram e recontaram suas histórias, a princesa amazona teve a série dos anos 1970, com Lynda Carter, como único empreendimento bem-sucedido da heroína fora dos quadrinhos.

O filme com Gal Gadot no papel principal veio para remediar isso, contando sua origem e buscando construir a personagem e seu universo junto ao público, mas também de acordo com o tom do universo cinematográfico que Warner/DC está criando. Isso tudo é muito bem feito. E já não era sem tempo.

A direção de Patty Jenkins constitui o diferencial desse filme antes de qualquer coisa. Por exemplo, Diana ainda tem o uniforme curto, apesar de renovado, mas em momento nenhum a personagem é sexualizada na tela. E o que tornou isso possível é o olhar feminino por trás das câmeras. Todos os planos detalhe da armadura tem apelo ao poder e força que a heroína exala, não às partes de seu corpo. Muito diferente do que aconteceu com outra personagem da DC: a Arlequina. Não é só o fato do uniforme dela ser…bem, uma calcinha, mas são principalmente os enquadramentos que exploram o corpo da personagem que é o que a sexualizam e objetificam.

Outro artifício muito usado no filme, assim como em outros longas da DC, é a câmera lenta. O que poderia se transformar num abuso do corpo de Gal Gadot, é utilizado para dar ênfase nos movimentos das cenas de luta. A elegância das amazonas nas batalhas e treinamentos é de babar. O recurso evidencia o quanto as coreografias são muito bem feitas, pois geralmente são utilizados cortes secos e rápidos para dar uma falsa impressão de ação e disfarçar que os atores não lutam tão bem assim. Em Mulher-Maravilha, você acredita mesmo que aquelas mulheres são guerreiras natas.

Além da postura forte, Diana mistura a inocência da jovem que nunca viu o mundo dos homens, com a sabedoria e firmeza de uma guerreira amazona, certa de seu papel como heroína. Em Themyscira, Diana deseja se tornar uma poderosa amazona desde pequena. Quando deixa a ilha e segue para o mundo dos homens, desafia o modo como a sociedade funciona e como mulheres são tratadas. Mas não apontando o dedo na cara do patriarcado e dando sermão ou ensinando as mulheres que não precisam se portar assim ou assado. Por ter vivido em um mundo à parte até então, ela simplesmente não entende porque algumas coisas são como são e questiona esses protocolos sociais machistas. Os melhores diálogos do filme são nesses momentos. É aí que a história passa a mensagem feminista da forma mais clara possível: demonstrando o quão absurdos são os papéis impostos às mulheres.

 

 

Além disso, um dos trunfos de levar personagens tão icônicos e com tanto tempo de história para o cinema é que eles vêm acompanhados de um rico universo; no caso, Themyscira e as amazonas. Com certeza uma das melhores coisas do longa são essas guerreiras e sua sociedade matriarcal. Destaque para a rainha Hipólita (Connie Nielsen) e a general Antíope (Robin Wright), que protagoniza uma das melhores cenas de ação na praia de Themyscira. A vontade de explorar a história da ilha e de suas habitantes que fica no público é um sinal da profundidade e impacto que essas personagens têm. Elas têm personalidades marcantes e motivações próprias. É muito bom perceber o cuidado de Patty Jenkins em não tornar Diana a única personagem mulher digna de atenção.

 

 

A única ressalva seria a de que Hipólita não é a mãe exigente e dura mostrada tantas vezes nos quadrinhos, postura condizente com seu posto de rainha e guerreira inclusive. Mas uma mãe excessivamente protetora e preocupada, mais de acordo com o ideal de maternidade disseminado na sociedade.

 

Todas se curvam à rainha Hipólita com seu machado de Labrys <3

 

Já no mundo dos homens, Diana encara sua missão acompanhada de um grupo de soldados recrutados por Steve (Chris Pine) que apresenta outra questão importante: a diversidade. Poderia ter sido só um grupo de homens brancos heroicos seguindo Diana. Ao invés disso, a trama reúne Samir (Saïd Taghmaoui) Charlie (Ewen Bremner) e Chefe (Eugene Brave Rock). Aqui vai um exemplo do quanto essa interação é significativa. Em um determinado momento, Samir diz a Diana que gostaria de ter sido ator, mas que havia nascido com a cor de pele errada naquela sociedade.

 

 

Esses personagens são de extrema importância na trama, eles são a ligação de Diana com o mundo dos homens, demonstrando sua complexidade, contradições e os impactos que a guerra deixa nas pessoas. A influência disso na heroína é percebida pelo amadurecimento de Diana diante desse mundo que ela não entende completamente, mas que quer defender.

O que torna a Mulher-Maravilha diferente da maioria dos super-heróis dos quadrinhos levados para o cinema é que ela se aproxima do ideal grego de herói de fato, não apenas utiliza elementos dessa mitologia como pano de fundo. Ao contrário de uma trama sombria e melancólica (muito popular nos filmes de super-heróis da era pós-Nolan), a história de Diana é cativante e otimista. Ela não tem seu heroísmo motivado pela perda (apesar da morte de um personagem importante na trama), pela busca por vingança ou em um evento extraordinário que a força a seguir uma jornada contra sua vontade. Ela nasce heroína. E não questiona sua natureza ou perde sua motivação.

Mulher-Maravilha é um filme empoderador. Pode não ser perfeito, mas marca o início de um novo olhar e, possivelmente, uma nova era para a representação feminina nas telas do cinema. Os relatos de tantas mulheres na internet só demonstram que a jornada dessa heroína proporcionou para o público feminino algo que antes só os homens tinham.

 

“Não é à toa que homens brancos são tão obscenamente confiantes o tempo todo. Eu vi um filme de super-heroína e estou pronta para lutar com mil homens com minhas próprias mãos”

 

A resolução da trama apresenta a construção de uma personagem que respeita as origens pensadas por Marston. A adesão aos ideais de amor, justiça e verdade faz da Mulher-Maravilha não apenas a heroína que queremos, mas a heroína que precisamos. É fácil descer a porrada nos caras maus (e dá cenas ótimas também), mas ter a compaixão e esperança que ela deposita na humanidade é, em suma, seu melhor traço como heroína.

Seja pela trama que eleva Diana ao panteão de heróis como Batman ou Superman, ou até os gregos lendários Ulisses, Teseu e Aquiles, seja pela evidente necessidade do feminismo na sociedade, o filme nos mostra porque, depois de 75 anos de sua criação, Mulher-Maravilha é uma personagem atual. A luta por reconhecimento da capacidade e presença das mulheres no mundo e na ficção ainda está sendo travada e, graças às deusas, temos a Mulher-Maravilha do nosso lado nessa batalha.

 

Monique Nascimento