O dia em que eu me dei conta de que meu namoro era abusivo

O relacionamento abusivo é, antes de tudo, uma relação de poder. É alguém querendo dominar outra pessoa de alguma forma.

É triste pensar que aquela imagem do homem das cavernas arrastando a mulher pelo cabelo ainda pode ser tão atual ao se referir à maioria dos relacionamentos heterossexuais. Segundo uma pesquisa realizada em 2014 pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular, 3 em cada 5 mulheres já sofreram algum tipo de violência dentro do relacionamento. Se associarmos esse dado com o fato de que em 2016 mais de 30% das mulheres foram assassinadas por parceiros ou ex-parceiros, a situação se torna mais alarmante.

Esses dados são resultados da cultura machista em que vivemos, uma cultura que considera a mulher não apenas um ser inferior ao homem, mas também um objeto a ser controlado pelos homens, e eles, por sua vez, são ensinados a serem controladores, a tomarem conta das suas mulheres. Uma situação tão enraizada que muitas vezes é difícil perceber que está acontecendo.

Durante muito tempo eu pensei sobre meu último namoro e não dava para acreditar que eu, com todo meu feminismo e senso de liberdade, tinha ficado tanto tempo em um relacionamento abusivo. E o que era pior, eu, que já tinha passado por um namoro conturbado e abusivo, estava de novo em outro e nem percebia isso.

Foto: Naomi August

Um grande problema é que associamos o “abusivo” com violência física e verbal e esquecemos que tem muito mais coisa por trás, que a violência psicológica e emocional também existe e causa danos profundos. Outra dificuldade é que um relacionamento é sempre permeado por altos e baixos e nos momentos ruins a gente sempre acaba pensando que vai passar e tudo vai voltar ao normal.

Meu ex-namorado nunca me bateu, nunca gritou comigo ou me forçou a fazer algo que eu não queria. Eu olhava e pensava que eu era uma garota de sorte por ter um cara tão bom ao meu lado, que eu devia agradecer aos deuses por um cara tão legal e divertido gostar de mim, que não era tão legal e divertida quanto ele. Era nisso que eu acreditava e era ele quem me fazia acreditar nisso de maneiras muito sutis, às vezes fazendo comentários sobre coisas que eu gostava ou piadas sem graça sobre meu jeito desastrado. Ou afirmando em pequenas coisas o quão difícil era gostar de mim, o quanto eu era errada e como eu não merecia toda aquela atenção.

Acho que a pior coisa que já ouvi dele (e olha que hoje sei que foram muitas) foi que não terminava comigo porque se ele fizesse isso eu ficaria sozinha, porque não tinha mais ninguém além dele. A frase em si já é problemática porque mostrava o quanto ele se via como o centro da minha vida. Mas o que mais doía, ainda dói, é o quanto eu acreditava nisso, de que eu não teria ninguém além dele, que eu estava sozinha no mundo e que sem ele eu desmoronaria.

Arte: Tejfel Krisztian Painting

E de certa forma eu estava mesmo, porque uma coisa que um relacionamento abusivo faz com você é te afastar dos seus amigos, da sua família, de qualquer outra pessoa que não seja o outro. Parece que não dá para sair, que ninguém vai te ouvir, que ninguém se importa com você. O máximo que a gente consegue falar é sobre amenidades, o tempo, a faculdade, o calor…

Durante um ano inteiro era assim que eu me comunicava com as pessoas fora do meu relacionamento. Era difícil conversar, contar o que acontecia era mais difícil ainda, muitas vezes porque nem eu sabia o que estava acontecendo, era só a constante sensação de que eu era um lixo longe dele e que sozinha eu não era ninguém.

Hoje isso tudo dói de maneira estridente dentro de mim. Dói porque dá uma vergonha danada de pensar que passei por tudo isso e nunca tive voz para dizer nada. Dói porque tenho certeza que uma parte de mim sempre soube que tinha alguma coisa errada, que não era normal colocar a vida nas mãos de outra pessoa.

O que sobra é uma carga emocional muito pesada. Fica um medo enorme de deixar acontecer de novo, de passar por tudo isso, de confiar em alguém por mais clichê que isso seja. A gente começa a duvidar da gente mesmo e achar que a culpa é nossa, que passamos por isso porque a gente merece.  Que algumas migalhas de amor e um bocado de atenção é tudo que vamos ter.

Todos os dias é um exercício de me olhar no espelho e pensar que a culpa não é minha, que eu não causei aquela situação, que eu não merecia passar por aquilo e principalmente que eu não estou sozinha.

Foto: Malik Earnest
Mariane Ribeiro