O vaso

Por Isis Rangel

Ela sempre sonhara com uma mesa de madeira dessas redondas e pequenas, que mal cabem quatro cadeiras ao redor, porque a fazia lembrar da casa de sua avó.

Fazia uns três anos que tinha conseguido comprar a mesa e fez questão de enfeitá-la com uma toalha branca de crochê e um vasinho de arruda para espantar o mau olhado.

Ela amava tudo naquela a planta: a cor, a forma e especialmente o cheiro.

Até que naquela manhã ela passou a amar outra coisa naquele vasinho: descobrira que ele poderia salvar a sua vida.

Ela não sabia exatamente quando nem porquê, mas estava atrasada havia vários dias.

Começou a repassar todas as noites que passara junto ao namorado e não se lembrava de ter tido algum problema, mas aprendera com Friends que existe 3% de falha naquelas coisinhas de látex.

Um outro lado da cabeça dizia para ela relaxar, porque ela tinha feito tudo certo. Em duas semanas começaria no mestrado tão sonhado. Vida nova.

Talvez literalmente.

Ela não podia acreditar no que estava acontecendo ali.

Foi de novo ao banheiro para ter certeza: nenhuma manchinha de sangue.

“Se descer daqui duas horas, eu fico sem comer chocolate por um mês”

“Se descer daqui uma hora, eu fico sem beber por dois meses”

“Se descer daqui meia hora, eu fico sem transar por três meses”

A essa altura já tinha rezado para todos os santos que conhecia e lido todas as receitinhas que achara na internet.

Aparentemente a planta mais promissora estava bem na sua cara.

Sem condições de pagar uma clínica muito menos condições de se tornar mãe.

De novo no banheiro, nada de sangue.

Bebia chá de canela como se fosse o mais fino vinho do Porto. Uma amiga lhe disse que sempre ajudava a fazer descer.

Ainda faltava dois minutos para o resultado que ia mudar sua vida para sempre.

Ela se tornaria uma criminosa ou um ser eternamente vigilante.

Ela imaginou como seria se fosse positivo.

O namorado entraria pela porta do pequeno apartamento, ela daria a notícia. Os dois chorariam muito. Ele tentaria fingir que era forte para dar apoio a ela, mesmo que por dentro estivesse em pânico. Talvez até tentasse pegar dinheiro emprestado para ir a uma clínica que certamente algum conhecido conheceria.

Ela diria não, não queria se comprometer tanto assim. Pegaria a planta, faria o chá e tomaria tudo enquanto ele a olhava do sofá. Um olhar de puro pânico, tristeza e perda unidos no mar de possibilidades que aquele sangue que não descia causava nos dois.

E então enquanto ele estivesse no trabalho, a dor começaria. Em algum momento começaria a sangrar.

De repente poderia sangrar muito. As dores seriam insuportáveis. Não haveria o que fazer. Talvez ela morresse ali mesmo no chão daquele banheiro.

O tapete ensanguentado. A água corrente. O celular longe demais para ligar por socorro. A lei antiga demais para salvá-la daquele destino.

O namorado entraria pela porta, passaria pela planta, veria o corpo contorcido de dor no chão e…

O celular apitou anunciando que os cinco minutos necessários para o resultado tinham passado.

Ela continuava a olhar para a planta, com medo de qualquer futuro.

Voltou ao banheiro e havia apenas uma tira.

Negativo.

Ela se segurou na beirada da pia e sorriu.

Deitou no chão do banheiro e, contorcida, chorou um choro de alívio.

Fazia algumas horas que continuava deitada ali, agradecendo a todos os santos que conhecia.

O namorado entrou pela porta, passou pela planta e a encontrou deitada no banheiro suja de sangue.

Aparentemente o chá de canela havia funcionado.

Desde então, ela sempre dá um vasinho de arruda embrulhado num pacote preso por canelas em pau para todas as mulheres em seus aniversários.

Ela ficaria conhecida por isso e ninguém nunca entenderia o porquê.

Até que uma amiga se pegou olhando para cima de sua estante como se o vaso de planta pudesse salvar a sua vida.

Dessa vez nada salvou.

 

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Isis Rangel