Poema inédito da grega Safo de Lesbos fala da homossexualidade feminina no século VII a.C

O Suplemento Pernambuco revelou, na última semana, uma poesia inédita escrita pela mulher grega Safo de Lesbos, que viveu no século VII a.C. O nome de Safo foi difundido na cultura popular fazendo alusão às mulheres que amavam mulheres, já que ela própria teria morado na Ilha de Lesbos e se envolvido romanticamente com mulheres, em cultos à deusa Afrodite. Os registros revelam que ela teve três companheiras: Átthis, Telessíppa e Mégara.

Sappho and Erinna in a Garden at Mytilene – Simeon Solomon

Safo foi uma poetisa importante e também uma líder intelectual, além de ter fundado um colégio para mulheres, onde ensinava música, poesia e dança. Naquela época, na Grécia antiga, as mulheres não tinham os mesmos direitos ao acesso à democracia, a vida pública e as artes como os homens tinham.

De acordo com o Suplemento, “o poema é triste, fala da separação entre duas mulheres (seja pela morte ou pela partida de uma delas). Mas nos mostra o eu poético de sexualidade lésbica em primeira pessoa. Numa sociedade como a grega, na qual a homossexualidade era naturalizada, o poema não causava choques. No presente homofóbico em que vivemos, transforma-se em possível peça de resistência”.

Confira o poema, que integra o livro Lírica grega, hoje:

A morte, para ser franca, é o que me desejo.
Ela me abandonou às lágrimas,

a um caudal de lágrimas, enquanto me dizia:
“Não foi pouco o que ambas sofremos,
Safo. Deixo-te, contrária ao meu coração”.

Segue o que lhe respondi:
“Leva o meu adeus! Preserva-me
em tua memória.
Não ignoras o quanto nos preocupamos contigo.

Caso não (te lembres)… permito-me
rememorar…
… o quanto da beleza provamos juntas.

Guirlandas, não faltaram nelas rosas
nem violetas…
… rente a mim depuseste,

tampouco grinaldas, inúmeras delas,
cujas tranças enlaçavam o colo frágil,
flores…

e… com o eflúvio
das flores…
que dignificaria uma rainha, te ungiste,

e na maciez do leito
jovial…
satisfazias tua volúpia…

Santuário não havia
um sequer…
em que não nos fizéssemos presentes,

nem bosque… dança… sonoridades…

Arte: Panmela Castro
Thamires Motta
Jornalista introvertida. Sapatona convicta. Vezenquando poeta, fotógrafa e tudo aquilo que a vida me permitir ser. Meio insegura, meio corajosa. No fundo, no fundo, só muito ansiosa para mudar o mundo.