Por trás da cortina

Foto: Lara Pires

Discurso é uma coisa engraçada
O cara chega e deixa implícito o como ele acha IMPOSSÍVEL
Que um monte de vagabunda saia na rua
E peça um salário do seu nível

Lá em Brasília, cara que alimenta machismo
Tem aplauso e faixa condecorada
Enquanto a mina aqui de baixo
Tá sendo estuprada
Assassinada
Empalada
Silenciada

E na balada cê não pode dar vexame
Paga mais barato pra alimentar vontade de macho por disputa
E se negar fogo até a música fica baixa pro grito SUA CRETINA FILHA DA PUTA!

É, é filha de chocadeira
Vagabunda, piranha SIM
Desculpe, seu currículo é ótimo
Mas nessa empresa preconceituosa
Não cabe o número do seu manequim
Mas não esquenta,
O prato de hoje é a masculinidade
Os ingredientes principais chamam ego e fragilidade

Mas ele tava bêbado, não é assim, ele não fez por mal
Cê sabe né, não tem jeito de controlar o próprio pau
Lá na favela a mina tá num tiroteio horrível de se ver
Mas ninguém sabe, já que tão passando a dramaturgia branca na TV
O povo chora e assiste um príncipe protegendo a donzela que não sabe o que fazer
E a que tá em tempo real na favela só tá tentando sobreviver

Porque enquanto eu faço essa rima
Nenhuma mina tá segura
E o cara que se diz feministo
Aplaude político que exalta a ditadura

Texto: Eduarda Souza
Foto: Lara Pires

Thamires Motta
Jornalista introvertida. Sapatona convicta. Vezenquando poeta, fotógrafa e tudo aquilo que a vida me permitir ser. Meio insegura, meio corajosa. No fundo, no fundo, só muito ansiosa para mudar o mundo.