Real, clandestino e necessário: as dores do aborto pelas vozes delas

Milhares de mulheres abortam clandestinamente no Brasil e as consequências são os traumas psicológicos das que conseguem sobreviver

Teresa* se recorda que já era mãe solteira quando se viu novamente grávida e optou pelo aborto. Comprou quatro pilulas de Cytotec e sentiu efeitos dolorosos: Cólicas fortes, diarréia, sudorese e um sangramento que, iniciado no dia seguinte, continuou por mais cinco. Mas o ultrassom apontou um abortamento incompleto.

Ela tentou novamente e tomou o dobro de pílulas. Doeu tanto que achou que ia morrer. Foi para o hospital e lá nem os remédios sanaram sua dor. Ao ir ao banheiro por dores muito fortes, passou pelo maior trauma de sua vida: Sentiu uma massa de sangue cair de dentro de si.  A imagem a atormentou por dias.

No fim desse mesmo dia, enquanto ainda estava no hospital, sua família de origem cristã descobriu o aborto. Acabou sendo julgada de diversas formas e, com o passar do tempo, em toda discussão que tinha com a tia que a criou, era chamada de pecadora.

Teresa* ainda tem discussões em casa, mas reconhece que com o passar dos dias sua tia passou a entender o quanto o assunto a machuca. “Se as pessoas soubessem o trauma que é um aborto, nós mulheres não seríamos tão condenadas. É como se a gente sofresse duas vezes: Por ter um aborto e por ser julgada”, ela diz.

A garota ainda não sabia disso, mas acabava de integrar a estatística assustadora do número de mulheres que abortam clandestinamente no Brasil. Apesar da dificuldade de se contabilizar a quantidade de abortamentos, estima-se que, assim como Teresa* um milhão de mulheres abortem todos os anos.

Foto: Filipa Moutinho

O aborto é classificado como um problema de saúde pública e segundo a OMS, no mundo 20 milhões de abortos são realizados por indivíduos sem conhecimento necessário ou feitos num local sem higiene. Já no Brasil a prática configura-se como a 5ª maior causa de morte materna e mata uma mulher a cada dois dias.

Aqui no Brasil, o aborto só é permitido em casos de risco de vida da gestante, quando a gravidez é resultado de um estupro ou quando o feto é anencéfalo. O que não impede que milhares de mulheres, independente de lei, religião ou opinião, busquem o aborto clandestino no país todos os anos e aconteçam 250 mil internações por complicações pós-aborto anualmente.

A discussão do aborto sob outras óticas, além da esfera religiosa e da opinião pessoal, torna-se necessária quando milhares de mulheres morrem por abortarem em situações inseguras. E as que sobrevivem ainda carregam o trauma das dores físicas do procedimento, das dores emocionais e psicológicas e ainda o medo dos julgamentos.

 

A história desigual do aborto no Brasil

O preço cobrado por clínicas clandestinas seguras é tão alto que foge da realidade da maioria das mulheres brasileiras. Até mesmo o Cytotec, remédio usado para abortar medicinalmente, é inacessível para muitas. Enquanto algumas abortam de forma segura porque têm dinheiro, outras são obrigadas a recorrer a métodos terríveis: introdução de objetos pontiagudos no útero, agressões com socos e pontapés e abortos cirúrgicos feitos em fundos de quintais. Práticas que geram perfuração do útero, esterilidade, infecções e, na maioria das vezes, a morte.

A Pesquisa Nacional sobre Aborto de 2010 mostra que são as mulheres pobres e negras as que mais realizam abortos inseguros. Além disso, são elas as que mais dependem de trabalhos domésticos ou informais e muitas recorrem ao aborto para assegurar o trabalho. Assim como Jandira Magdalena e Elizângela Barbosa que interromperam a gravidez por medo de perderem seus empregos e acabaram falecendo.

São elas também que, quando levam a gravidez adiante se tornam as principais vítimas de violência obstétrica, da negligência no atendimento ao pré-natal, da falta de vagas em creches, da dupla jornada, do emprego precário e do desemprego. Além de que, em sua maioria, mães negras são as que mais são abandonadas por seus parceiros.

Foto: Felipa Moutinho

Medicinal ou cirúrgico

O aborto feito de forma medicinal usa o Mifepristone e, 24 horas depois, quatro pílulas de Misoprostol (famoso Cytotec). O Cytotec embora seja usado para tratar úlcera tem forte poder abortivo. Ele só é indicado até a 9ª semana. Depois, da 9ª à 22ª semana, é melhor o cirúrgico. Mas seja qual for o método, as dores são as mesmas e, dependendo de como for feito, podem chegar a ser  dores insuportáveis.

O cirúrgico é realizado por aspiração e curetagem e ambos necessitam de anestesia. A aspiração por vácuo ocorre por meio de uma cânula ligada a uma fonte de aspiração elétrica ou manual. Na curetagem se faz toda a raspagem da cavidade uterina e é necessária a dilatação cervical com dilatadores mecânicos e lâminas para chegar ao interior do útero.

Os procedimentos abortivos são invasivos e dolorosos em todos os níveis atingindo cada mulher de uma maneira diferente; umas têm mais cólicas, outras mais vômitos. Mas geralmente o pós-aborto tem hemorragias que duram dias ou semanas, parecidas com menstruação, náuseas que chegam a durar 24 horas, cólicas, vômitos, febre e até diarreia.

Mulheres Clandestinas

Gisele* fez um aborto clandestino medicinal com Mifepristone e Misoprostol. Sentiu medo de algo dar errado durante todo o procedimento. Por ter tomado dois analgésicos, sua cólica foi fraca e suportável, mas os vômitos eram incessantes e vinham até quando ela tomava água.

Já Noema* teve dificuldades em comprar os remédios abortivos assim que se descobriu grávida por não ter o dinheiro necessário. Após tentar métodos caseiros falhos como chás, conseguiu comprar Cytotec. Ela teve um procedimento bem doloroso e traumático e até seu parceiro se desesperou ao vê-la com tanta dor.

Gisele* e Noema* são a favor da legalização do aborto por saberem que a maioria das mulheres não têm a mesma sorte que elas. “A escolha de ser mãe só diz respeito à mulher. Quem quer abortar acaba fazendo sendo o aborto legal ou não, então, já que é assim, prefiro que as mulheres abortem de maneira segura, sem correr risco de vida como geralmente acontece. A legalização agiria nesse ponto, no de proporcionar um procedimento seguro, o que diminuiria a quantidade de mulheres que morrem e que fazem aborto”, conta Gisele*.

Foto: Elvira Kakuszi

E ela tem motivos para acreditar nisso, já que nos países onde a prática é legal, houve uma grande queda nos números de abortos realizados e no de mortes maternas, como o Uruguai que descriminalizou o aborto em 2012. Tal diminuição só ocorre por causa da política de planejamento reprodutivo que conta com políticas públicas de educação sexual e reprodutiva, planejamento familiar, atendimento psicológico à gestante, o uso de métodos anticoncepcionais, além de serviços de atendimento integral de saúde sexual e reprodutiva.

Samanta* é brasileira, mas há três anos mora na Flórida, nos EUA, estado onde o aborto é legal. Ao realizar um abortamento optou pelo método medicinal e recebeu os dois remédios dos médicos. Entre 30 minutos e duas horas após ter tomado o Misoprostol, sentiu uma forte cólica e sangrou por 14 dias. Mesmo vivendo num país que não vê o abortamento como crime ela acha vergonhoso falar sobre sua experiência: “Geralmente as pessoas encaram o fato como se fosse uma impureza tão grande, como se fosse bem pior do que é”.

As três não contaram para ninguém da família sobre o aborto por medo dos julgamentos que poderiam enfrentar, com exceção de Samanta* que precisava da permissão da mãe para seguir com o procedimento. São mulheres que nunca esquecerão o aborto porque foi a coisa mais traumática que viveram.

Saiba mais

O documentário “Clandestinas” conta a história de mulheres que já realizaram aborto por diferentes motivos. Com direção de Fadhia Salomão, roteiro de Renata Côrrea e produção de Babi Lopes, o filme relata como o aborto, é uma realidade no país, mesmo sendo considerado crime.

Nesse vídeo, o doutor Drauzio Varella fala sobre o programa aborto legal e comenta a situação do aborto no Brasil com o médico Jefferson Drezett, coordenador do ambulatório de violência sexual e abortamento legal do hospital Pérola Byington de São Paulo.

 

(*): Os nomes aqui mencionados foram inventados para ocultar e não invadir a privacidade das mulheres que deram seus relatos.

Daniele Olimpio