Ser mulher não é ter vocação para ser mãe

Por Mariane Ribeiro

Esses tempos uma prima minha casou e agora vai ter um bebê. Ela é de um lado da família com quem não tenho muito contato, vejo de vez em quando, só em grandes datas comemorativas. Mas dessa prima eu já fui bem próxima, então quando ela me pediu ajuda com os docinhos e as lembrancinhas do casamento, me prontifiquei na tarefa.

Não apenas fui convocada para ajudar com os docinhos como também uma boa quantidade de tias-avós, que são daquelas bem antigas e que adoram dar pitaco na vida dos outros. Em algum momento da tarde começaram a falar sobre o bebê que minha prima está esperando, se era menino ou menina, quanto tempo faltava para nascer, qual o nome e como era gostoso saber que tem uma vida crescendo dentro da gente e que “toda mulher tem que passar por isso uma vez na vida para se sentir realizada”.

Nesse ponto da conversa eu já estava bem incomodada e querendo dizer que a maternidade não define uma mulher e que nem todas querem ser mães.

Foto: Jordan Whitt

Entenda, eu acho ser mãe é uma coisa linda, criar uma criança, educar é um ato de amor incrível, mas eu nunca quis ser mãe e muito menos ter algo crescendo dentro de mim. Quando criança eu tinha algumas bonecas, mas nunca me vi como mãe delas e a maioria era daquelas que não se parecem com um bebê. Nas brincadeiras de casinha com a minha irmã, ela sempre foi a mãe e eu era a tia legal, que viajava o mundo, que trabalha como dona de uma grande empresa de cosméticos, que estava sempre arrumada e ocupada demais. Às vezes eu também era a filha rebelde que queria ir para as festas e fazer faculdade fora de casa – alguns sonhos a gente alcança.

Então quando ao fim da conversa uma dessas tia-avós veio até mim e perguntou quando ia ser a minha vez porque eu estava “ficando pra trás”, eu queria gritar que quem cuida da minha vida sou eu. Apenas respondi que não, obrigada, e o contra-argumento foi que eu ainda era jovem e que quando eu conhecer o homem certo vou querer ter filhos com ele.

Particularmente não quero ter filhos, não sei se é uma decisão que vai durar para sempre ou se vou mudar de ideia em alguma altura da vida. Mas incomoda muito essa imposição da maternidade, de que a mulher só consegue ser feliz e completa depois que tem filhos, que independente de tudo que você faça, que você conquiste, não ter um filho faz de você menos mulher.

Incomoda essa coisa de ver a maternidade como uma benção e a solução de todos os problemas. Tem mulher que não quer ser mãe, que não tem escolha, que no fim do dia chega do trabalho cansada e ainda tem que cuidar dos filhos, ajudar com a lição, arrumar as roupas da escola.

A maternidade é uma coisa linda, porém a forma como ela é imposta para as mulheres é resultado de uma cultura patriarcal e machista, que só enxerga a mulher como reprodutora e não como um ser humano que pode ou não escolher ser mãe.

Para as minhas tias eu só queria dizer que ter filhos não é tudo na vida e que nem eu, e nem outras mulheres precisamos disso para sermos completas. Para minha prima eu queria ter perguntado, em meio a tantos sorrisos e comentários felizes, como ela estava se sentindo.

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Mariane Ribeiro