FAC Sapatão: Tudo o que você precisa saber sobre a saúde sexual de mulheres lésbicas

Cuidar da saúde sexual não é só uma maneira de ter uma vida melhor. Diálogo, informação e conhecimento são fatores importantíssimos para ter relações seguras e saudáveis entre mulheres com mulheres, já que Doenças Sexualmente Transmissíveis e outros problemas ainda estão envoltos por muito senso comum e preconceito. Mulheres que se relacionam com mulheres precisam ficar procurando “alternativas” para se proteger, e na imensa maioria dos casos acabam não usando nada, o que se torna um fator de risco para a nossa saúde. Além disso, é comum que médicos e ginecologistas não tenham preparo ou cuidado para abordar as questões relativas especificamente à saúde de mulheres lésbicas.

Por isso, separamos um pequeno guia com várias informações importantes sobre saúde lésbica, DSTs, métodos de cuidado e prevenção e até como denunciar se você sofrer discriminação.

Cuidar de si mesma e da sua parceira é nossa grande prova de resistência! 😉

Foto: Buhle Mpila

Partiu tesourinha!

  1. Existem métodos de proteção de DSTs para mulheres lésbicas?

Existem métodos “alternativos”, como são chamados, mas não existem métodos criados especificamente pensando nas relações de mulheres com mulheres. Essas alternativas são usadas por muitas mulheres para tentar evitar o contato direto com os fluídos corporais da parceira, o que é a principal forma de transmissão de doenças.

Em uma pesquisa feita pela Casa de Labrys, entrevistando 581 mulheres, das quais 48,7% se identificam como lésbicas, ao todo, 91,7% das mulheres que responderam afirmam acreditar na premissa de que mulheres que fazem sexo com outras mulheres correm risco de pegar DSTs, mas 70,9% não utilizam nenhum tipo de proteção ou método preventivo e 21,7% afirmaram que não conhecem nenhum método voltado para mulheres.

  1. O que nós podemos usar para proteção, então?

De acordo com Salma Regina Gallate, médica com especialização em Nefrologia e Terapia Intensiva e mulher lésbica, os métodos existem, mas falta informação sobre eles. “A camisinha feminina por exemplo protege grande parte da vulva, e por isso está mais relacionada ao sexo seguro”. Além dela, existem outras alternativas indicadas pela médica: luvas, dedeiras, plástico filme e “dental dam” (uma espécie de plástico filme usado por dentistas, mais robusto que o comum).

  1. E se eu não tiver nenhum desses objetos?

O ideal é sempre investir na prevenção. Infelizmente, as mulheres lésbicas precisam ficar procurando “alternativas” no ato sexual para se prevenir. Assim como os casais hetero (geralmente) guardam uma camisinha no bolso, nada impede de deixar na gaveta uma luvinha, pelo menos. Cuidar de si mesma também é um passo importante para evitar transmitir ou receber DSTs: deixe as unhas sempre aparadas para evitar cortes, esteja em dia com a sua vacinação do HPV, mantenha a saúde bucal sempre em dia também. Pequenas feridas na boca, nos dedos e na região íntima é que possibilitam a transmissão de doenças. Ah, e se for usar brinquedinhos, eles precisam estar sempre higienizados e de preferência com camisinha. O ideal é não compartilhar com a parceira também, cada uma deve ter o seu.

Ilustração: Nikki Pecasso
  1. Mulheres lésbicas correm menos riscos de pegar doenças sexualmente transmissíveis, né?

Não necessariamente. De acordo com Salma, “não existe nenhuma doença mais prevalente em lésbicas, e os riscos são mais baixos, mas sempre existem”. A doutora frisa que todas as Doenças Sexualmente Transmissíveis podem ser transmitidas entre lésbicas, como HIV, sífilis, hepatite e candidíase.

  1. O que é o HPV?

“O HPV é um vírus com mais de 200 tipos diferentes, sendo que 45 atingem os genitais. O HPV 16 e 18 são de alto risco, e também são responsáveis pelos problemas na vulva, colo uterino, ânus, garganta e reto”, explica a médica Salma Gallate. Ele causa pequenas verrugas e lesões, que podem acabar se tornando porta de entrada para o câncer de colo de útero. Para evitá-lo existem vacinas, e para tratá-lo, cremes dermatológicos e uma consulta ao médico é imprescindível.

  1. Mulheres lésbicas têm maior incidência de câncer de colo de útero?

No livro “Atenção Integral à Saúde de Mulheres Lésbicas e Bissexuais”, organizado pelo Ministério da Saúde em 2014, Wilza Vilella, psiquiatra e professora do Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva da Unifesp, apontou que o câncer de colo de útero tem um fator de risco comum em mulheres lésbicas, que seria a maior dificuldade dessas mulheres fazerem os exames porque têm menos acesso a consultas de maneira geral. Esse fator de risco indica que por causa da presença direta do HPV e da menor frequência de realização de exames, essas mulheres demoram muito mais para identificar o problema e iniciar o tratamento.

Na prática, não existe uma pesquisa que comprove que mulheres lésbicas têm maior incidência desse problema, como explica Fernanda Calderaro, psicóloga e coordenadora do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Estado do Ceará. “O que a meu ver acontece é uma negligência em relação à saúde de algumas mulheres lésbicas devido ao histórico de preconceito e discriminação nos espaços clínicos e fora deles”, diz.

Foto: Shanika Warren-Markland/Susannah Fielding
  1. Mas como chegar na gata e propor o uso de papel filme?

Sim, é meio esquisito, nós sabemos. Infelizmente, métodos pensados especialmente para nós ainda não existem, por isso é preciso “se virar” para conseguir proteção. Mas ainda assim, a proteção é imprescindível nas relações sexuais! Por isso, a melhor alternativa ainda é a boa e velha conversa. Diálogo! Deixe a vergonha de lado e converse com a parceira sobre isso. Diga que é importante vocês pensarem em uma alternativa que deixe as duas confortáveis: pode ser luva, dedeira, papel filme ou camisinha feminina. Deixe as unhas curtinhas (e as dela também), visite o dentista regularmente e se estiver com alguma ferida nas mãos ou nos genitais, a melhor opção é deixar o rala e rola cem por cento protegido!

  1. Por que esses métodos ainda não foram criados para a gente?

A resposta é simples e dolorida: puro preconceito. De acordo com Karina Eid, Médica e mulher lésbica, existem algumas razões principais. “Os métodos de proteção existem, como a camisinha feminina, mas não são divulgados à população lésbica porque as taxas de DST são menores e há menos trabalhos estudando essas doenças e sua prevenção”, diz. Além disso, a população lésbica tem maior dificuldade em acessar os serviços de saúde pelo preconceito e porque os próprios profissionais de saúde não estão preparados para atender essa população, conta.

  1. Eu realmente preciso ir ao ginecologista frequentemente?

Sim. Preferencialmente, com frequência. Na pesquisa feita pela Casa de Labrys, que entrevistou 581 mulheres, 44,8% responderam que só vão ao ginecologista uma vez ao ano, 22,6% só vão em casos de emergência, 14,8% vão duas vezes ao ano e 11,6% nunca vão. Esses dados demonstram que as mulheres que se relacionam com mulheres podem estar cuidando pouco da sua saúde ginecológica e sexual, o que torna ainda mais difícil o reconhecimento de doenças e o tratamento.

Ilustração: Artista desconhecido
  1. Lésbicas e bissexuais correm risco de sofrer discriminação no consultório médico?

Infelizmente, sim. Na pesquisa, 20,8% das mulheres afirmaram que já sofreram algum tipo de humilhação ou desrespeito na consulta médica. Recebemos 112 relatos que demonstram momentos de humilhação, discriminação, ofensa e até abuso sexual nas consultas ginecológicas.

Além disso, ao serem perguntadas se já haviam sofrido algum tipo de violência durante a vida, 58,9% responderam afirmativamente, dizendo que já foram xingadas ou ofendidas. 14,9% das mulheres já sofreram violência sexual ou estupro, e 7,1% já foram agredidas. Recebemos 195 relatos denunciando abusos sexuais na infância, adolescência e vida adulta, agressões em casas noturnas e nas ruas, xingamentos e ofensas durante a vida, e agressões físicas vindas de familiares e desconhecidos.

  1. Como eu devo agir se perceber que fui discriminada por causa da minha orientação sexual no consultório médico?

Infelizmente, ainda não há no Brasil uma legislação específica pensada para os casos em que a população LGBT passa por preconceito ou discriminação. O projeto de lei que pedia a criminalização da homofobia foi arquivado em 2014.

A maior parte dos estados brasileiros não têm delegacias especializadas, por isso a orientação é que as denúncias sejam feitas pelo Disque 100 (Departamento de Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos) e 190 (número da Polícia Militar). O boletim de ocorrência também pode ser feito no site da Polícia Civil. No momento da ocorrência, é sempre importante comentar que a discriminação pode ter acontecido por causa da orientação sexual.

No Estado de São Paulo, vigora a Lei 10.948/01, que penaliza administrativamente os atos de discriminação contra a população LGBT. Essas penalidades variam desde advertência, multa de até três mil reais, suspensão ou cassação da licença estadual de funcionamento. Além disso, a cidade de São Paulo tem uma delegacia especializada em crimes contra minorias: a Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).*

Foto: Nidhi Agrawal

Apesar de tudo, há luta

Apesar desse cenário um tanto quanto desanimador, é muito importante que as mulheres lésbicas não descuidem de sua saúde sexual. É preciso exigir que pesquisadores, clínicas e empresas comecem a pensar na necessidade de criar produtos voltados especificamente para nós. É preciso exigir que escolas de medicina, hospitais e doutores estejam atentos às nossas necessidades, tenham cursos de formação sobre o tratamento de mulheres lésbicas e bissexuais e discutam isso nas universidades. Também é muito importante sempre denunciar, e exigir das Câmaras e do Congresso que sejam criadas políticas públicas para melhorar as nossas vidas.


*Endereço da Delegacia: Rua Brigadeiro Tobias, 527, 3º andar, Luz, (11) 3311-3555.

Thamires Motta
Jornalista introvertida. Sapatona convicta. Vezenquando poeta, fotógrafa e tudo aquilo que a vida me permitir ser. Meio insegura, meio corajosa. No fundo, no fundo, só muito ansiosa para mudar o mundo.