Um mergulho no oceano: vivendo em um relacionamento abusivo

Por Melissa Bávaro

Depois de assistir diversos vídeos das brigas, entre Marcos e Emily do BBB17, senti meu coração acelerar. Fazia muito tempo que eu não sentia isso.

Sabe aquela ansiedade que tira o seu ar? Te deixa ofegante e você sente uma angústia muito grande? Agora, você junta todos esses sentimentos com o medo. Foi isso que eu senti durante sete anos.

Ver a participante Emily brigando com o namorado na casa, me fez voltar no tempo e reviver coisas que eu tento, diariamente, enterrar. Infelizmente, não é algo fácil. Passar por um relacionamento abusivo é, no mínimo, marcante, mas do pior jeito possível.

Enfim, toda vez que eu vejo alguém nessa situação – alguém sim, porque relacionamento abusivo não é só homem abusando de mulher, isso vale para qualquer tipo de relacionamento – eu me sinto na obrigação de fazer algo. Mas é preciso ter calma e cuidado, pois a pessoa abusada, muitas vezes, não sabe que sofre. Ou, sabe, mas não consegue se livrar do outro.

É algo parecido com o oceano. Você pode achar que está no controle da situação e só está boiando nas águas, enquanto na verdade, você está sendo levado ao mar aberto onde não dá pé, sem boia e sem barco.

No meu caso, eu dividi esse tipo de relacionamento em cinco etapas:

Fase um: Poção do amor

“Eu era muito galinha, mas eu parei por você, olha que sorte você tem.”

Bom, acho que o nome já é autoexplicativo.

É a fase do início do namoro. A pessoa é perfeita! Você está completamente apaixonado. Mas até aí, normal, né? Todo mundo fica assim em começo de namoro.

Sabe onde está o problema? A pessoa faz você acreditar que só ela é capaz de te fazer feliz e como você é sortudo em ter sido o escolhido. Os primeiros sinais já aparecem: controle e ciúmes.

Ela, sutilmente, te diminui fazendo você acreditar que PRECISA dela. Se não fosse por ela, você ainda estaria sozinho. Faz você acreditar que o que vocês têm é especial e seria uma pena se você estragasse tudo. E já deixa uma coisa bem clara: “eu não sou ciumento, só cuido do que é meu”, mesmo você percebendo certos comportamentos que acabam sendo ignorados. Deve ser coisa da sua cabeça.

Você está sob os efeitos da poção.

Fase dois: Olhos e Ouvidos Vendados

“Eles falam isso porque tem inveja do nosso amor. Querem nos separar.”

A partir de agora, você não vê e nem ouve ninguém.

Nessa fase, seus amigos já notaram que a pessoa te controla. Eles tentam alertar, mas você está com os olhos e ouvidos vendados. Você começa a achar ruim que eles falam do seu amor. Você acha que deveriam te apoiar, não é mesmo?

Já o seu parceiro(a), começa a fazer chantagens caso você queira ver alguém:

“Você sabe que eu não gosto de fulano.”

“Sinto que a ciclana é falsa com você, acho o olhar dela estranho.”

“Se você quiser ir, tudo bem, mas eu ficarei chateado.”

“Se você quiser sair, eu saio com você então, só nós dois.”

Também nessa fase, você já viu que esse tipo de atitude faz parte do jeito da pessoa e percebe que não dá pra lutar contra. Então o que você faz? Junta-se a ela.

Você começa a agir do mesmo jeito que o seu “amor”. Olha o celular dele e pergunta detalhes do dia. Mas, as suas vontades não são tão bem atendidas. Você pega demais no pé dele.

Não pode sair? Então ele também não vai. Mas, diferente dos seus amigos, a galera do seu parceiro(a) “presta”. Então, automaticamente, você faz parte da turma. A não ser se o assunto for dar um “perdido”, aí você está de fora, mas você não vai saber mesmo…

Fase três: Controle Absoluto e Negação

“Eu já disse que você não vai fazer formatura!!! Eu não gosto de ninguém da sua turma. Se você for, vai acabar com a nossa relação.”

Atenção: essa fase pode durar anos.

Você já sabe onde se meteu, mas nega até o fim. Além de não ser dono do próprio corpo, da mente e, principalmente, do celular. Seus amigos estão distantes e agora, a sua família também começar a achar ruim essa relação. Mas, você insiste em mostrar a eles que o seu “amor” não faz por mal e que você é muito feliz com ele.

Você já chegou ao ponto de pedir pra sair e dar informações detalhadas do seu dia. Você não conversa com ninguém do sexo oposto (ou do gênero que te atrai), além de fazer tudo o que o outro manda. Isso vale para: aparência, comportamento e até decisões da sua vida, como cursos a se fazer, se vai sair pra almoçar com a família ou se vai comprar uma roupa ou fazer uma tatuagem, por exemplo.

“Eu confio em você, só não confio nos outros.”

Como eu disse, o seu corpo não é mais seu. Você tem que deixá-lo do jeito que o ser parceiro(a) quiser. Se ele quiser você magro, você tem que ficar magro, se não, ele termina. Além de estar sexualmente à disposição dele. Se você não estiver afim de transar, por estar num dia ruim ou chateado com alguma atitude dele, isso vai virar uma briga daquelas.

Nesse caso, você TEM que aprender a separar o sexo do resto do relacionamento. Foda-se se você está chateado por ver uma mensagem suspeita no celular dele. Você tem que ir pra cama com ele. Você aceita ou vai ficar numa eterna discussão durante dias.

“Se você continuar assim, serei obrigado a procurar em outros lugares. Você precisa ver se não está com algum problema. Eu não posso esperar muito. Pretendente é o que não falta.”

Essa fase é marcada por picos de fúria da pessoa amada. Ela surta por motivos de ciúmes ou qualquer outra coisa que você tenha feito. Você SEMPRE será o culpado. Choveu? A culpa é sua. E tem mais, a briga SEMPRE vai acabar com você pedindo desculpas. Independente do que for. O jogo sempre vira contra você (podem acontecer agressões físicas).

Se você não gostou do jeito escroto que ele te tratou na frente dos amigos e vai conversar sobre o ocorrido, no final você estará pedindo desculpas. E como mágica, você acaba silenciado novamente.

Tudo o que você faz é muito grave, mas tudo o que ele faz tem que ser relevado, independente do que for. Você é um louco que fica vendo coisa onde não tem e é muito do sortudo por ter alguém que te ature. Vive sob ameaças de término e abandono, já que você não tem mais amigos e afastou sua família.

Se você ainda tiver algum amigo, o assunto “relacionamento” não é nem mencionado, porque você já sabe o que vai ouvir. Além de ver a cara feliz do seu amigo se transformar numa expressão de desgosto e reprovação. Você está sozinho.

Fase quatro: Despertar

“Se você não gosta de mim assim, termina. Vai! Termina logo. Quero ver se você tem coragem. Olha que eu sumo, hein. Você nunca mais vai me ver.”

Aqui, você já está no fundo do poço. Quer retomar as antigas amizades e sente falta do carinho da família. Vê as pessoas saindo pra se divertir e nem sabe mais o que é sorrir. Virou uma pessoa amarga que desconfia de tudo e de todos.

Essa, acredito eu, é a fase mais desgastante de todas. As brigas viram rotina. Você não quer mais continuar desse jeito, mas, infelizmente, já é tarde pra mudar algo. Terminar ainda não é uma opção. Você quer tentar mudar o relacionamento. Você acha que ainda ama o seu parceiro(a) e vai fazer de tudo pra ele mudar também.

Você ouve diariamente que é louco e que quer acabar com o relacionamento. Se continuar com esse papo vai acabar sozinho e depois vai se arrepender quando ver o seu parceiro(a) com outra pessoa. Você tem medo do que pode acontecer caso a relação acabe.

Medo de se arrepender, medo do outro fazer algo imprudente por sua causa, porque você rasgou o coração dele e qualquer coisa que acontecer de ruim vai ser culpa sua, pois foi você que provocou. A pessoa insinua que pode cair nas drogas, se matar e etc.

Sempre que você tenta iniciar uma conversa, ela termina em briga. Brigas que nunca aconteceram antes. Brigas feias. Vocês não tem mais respeito um pelo o outro. Os momentos de carinho são cada vez mais raros e o sexo não faz mais sentido, pelo menos pra você.

Fase cinco: Término

“Por que você está fazendo isso comigo? Você é uma pessoa horrível. Acabou com a gente. Tá feliz agora?” (choro e soluços)

Tentar terminar é algo extremamente trabalhoso. E isso leva tempo, meses. Você não tem mais saco pra aguentar a família do seu parceiro(a). Você não quer mais ir na casa dele. Você não aguenta mais a voz dele.

Eis que você tem um estalo: você não aguenta mais, já deu, chega! Você já tentou de tudo e foi em vão. Você só está mais desgastado, estressado e com ranço de tudo o que for relacionado ao seu futuro ex parceiro(a).

Chega o grande dia, você consegue terminar. Depois de horas conversando/brigando, você conseguiu. (Pode ser que você leve dias, semanas). Mas você já sabe: será a pior pessoa do mundo. Como consegue ser tão cruel com alguém que só queria o seu bem e te amava tanto? Pois é, como sempre, o jogo virou, mas nunca pro seu lado.

Nessa última fase, você nem liga tanto pra isso. Você está frio feito um iceberg. Não sente absolutamente nada. Você só quer sair desse oceano pra poder caminhar com as suas próprias pernas na areia.

Você não liga se vai ficar sozinho. Você não tem mais medo de sofrer. O seu coração tá tão calejado que você pode até sentir uma vontade de ver o outro chorar até derreter os olhos. Porque nada, nada vai ser equivalente ao que você sofreu.

O único medo que permanece é como o outro vai reagir ao término com o passar dos dias. Você está seguro? Sua casa, sua família e a sua rotina não são desconhecidas para o ex. Você prefere pagar pra ver.

Depois de ser xingado e, acreditar ou não, ser a pior pessoa do mundo de tanto drama e acusações que o ex fez, você sente, pela primeira vez, o vento no rosto. A sensação de que, finalmente, você está livre. E isso, é impagável. Você esquece medo, esquece ex, esquece de tudo que passou.

Retomar a sua vida não é fácil, mas pode acreditar que é o melhor trabalho de todos. Pode ser que você não tenha mais amigos, pois os seus se afastaram e os amigos do ex não são seus. Isso é muito triste, mas você ainda tem a chance de fazer novas amizades e sair para conhecer o mundo que você tinha esquecido.


A minha intenção com esse texto não é fazer um tutorial de como agir num relacionamento abusivo. Pois eu não sei até hoje como consegui sair. Eu ainda acho que tive “sorte” de como meu ex reagiu ao término. Não fui perseguida e nem ameaçada. Mas a gente sabe que nem todo relacionamento termina com os dois vivos. Pessoas, mais precisamente mulheres, morrem por terminar algo abusivo.

É uma relação perigosa e, extremamente tóxica que deixa sequelas pra vida toda, tanto físicas como psicológicas. É algo que você leva pra vida, como exemplo, como aprendizado, como motivo para ajudar as pessoas que vivem isso.

E tem mais: muitas vezes, a pessoa que é abusiva não sabe que abusa, entende? Ela age desse jeito por extrema insegurança e/ou medo de ser “passado pra trás”. Os dois precisam de ajuda.

Deixo aqui meu desabafo pra alertar as pessoas que abuso não precisa ser físico. A pessoa envolvida nesse tipo de relacionamento não entende, ela está imersa no oceano sendo carregada pela imensidão da água, sem conseguir voltar pra praia.

Não julgue e não culpe alguém por estar imerso. Ajude! Se alguém estiver sofrendo e estiver ao seu alcance, isso é da sua conta, sim.

*Todas as frases destacadas como diálogo são reais.

*Vale dar uma olhada nesses vídeos:

 

Thamires Motta
Jornalista introvertida. Sapatona convicta. Vezenquando poeta, fotógrafa e tudo aquilo que a vida me permitir ser. Meio insegura, meio corajosa. No fundo, no fundo, só muito ansiosa para mudar o mundo.