Uma casa cíclica: o que as mulheres realmente pensam sobre a menstruação

Diferentes mulheres de diferentes idades nos contaram um pouco sobre suas relações com o ciclo menstrual, cólicas, TPM, e tudo o que vem junto com ele. Vamos falar sobre isso?

Ilustração: Carolina Ito/Salsicha em Conserva

Em casa a gente sempre espera ter aconchego, um lugar para relaxar e simplesmente ser a gente mesma. Mas sabemos que nem sempre é assim, não é mesmo? Dentro de casa podemos vivenciar conflitos, podemos não ter a liberdade que imaginamos… e assim temos que aprender a conviver com tudo isso de forma a respeitar os diferentes tempos, espaços, e necessidades de cada pessoa.

 

No útero as coisas também funcionam mais ou menos assim. Periodicamente, seja todo mês, seja a cada dois meses ou a cada semestre, lá é onde se encontra o epicentro de toda a movimentação hormonal do corpo.

 

As mulheres cisgênero são as que nascem com uma vagina e relacionam esse órgão com a identidade de ser mulher. Geralmente desde os 10, 11 ou 12 anos, elas têm um encontro marcado com um misto de emoções, que, acompanhado de algum sangue, bate à porta todo mês.

 

Com o passar dos anos a gente acaba pegando o jeito da coisa e a menstruação se torna parte do cotidiano. Mas, ainda sim, o modo como cada mulher se relaciona com o seu ciclo menstrual é único.

 

Para entender um pouco mais sobre isso, fizemos uma pesquisa que conseguiu alcançar 1610 mulheres brasileiras na faixa de 10 a 49 anos. Elas nos contaram o que pensam da menstruação e como se relacionam com seus ciclos. Logo abaixo, dividimos os assuntos mais recorrentes nos depoimentos delas em alguns tópicos. Dá só uma olhada! 😉

 

Diferentes mulheres, diferentes ciclos

 

“Quando eu comecei a menstruar me senti horrível e suja e eu escondia de todo mundo. Depois acostumei, não tenho vergonha nenhuma disso. Só é chato mesmo por causa da tpm, um monte de sangue que nem o modes aguenta… e a cólica.” Laura*.

 

Já na infância o assunto causa repulsa – quem nunca ouviu um “que nojo!” ao falar sobre menstruação com alguém? Acontece que infelizmente essa frase se repete por muitos anos na vida de uma mulher mesmo depois de crescida. Não é raro ouvirmos de amigas, amigos, parceiros, parceiras, familiares e conhecidos o “quão nojenta” é nossa menstruação.

 

“A mulher ter acesso à informação e ao conhecimento de seu próprio corpo é uma coisa muito emergente. Tantas amigas minhas que podiam se conhecer muito mais olhando pro próprio ciclo menstrual.” Fernanda*.

 

A menstruação é um processo natural que acontece a milhares de anos. No entanto, sua aceitação como algo “normal” não é homogênea ainda hoje. Muito do estigma vem do próprio senso comum que coloca como um tabu o conhecimento da mulher sobre o seu corpo.

Dados: Pesquisa Labrys/Arte: Flávia Gândara Simão

Historicamente, quando não simplesmente omitida dos livros junto com o resto da sexualidade feminina, a menstruação foi frequentemente apontada pela medicina como um veneno que seria capaz de enlouquecer homens e assassinar bebês (!!!). Parece que o mito das mulheres bruxas e feiticeiras continua rendendo muito material, não é mesmo?

 

Absorvente externo, absorvente interno e coletor menstrual

 

“Menstruei pela primeira vez aos 11 anos e odiei desde então. 14 anos depois sou apresentada ao copo menstrual. Faço uso há 1 ano e desde então minha relação com a minha menstrução melhorou muito. Não amo, mas acho mais tranquilo passar por esse período normal na vida da maioria das mulheres cis (e homens trans).” Carla*.

 

Junto com a menstruação vem a compra na farmácia de pacotes e mais pacotes de todos os tipos de absorventes: os noturnos, os protetores diários, com abas, sem abas… cada um serve para uma situaçãozinha da menstruação. Nos primeiros dias em que ela está mais intensa, por exemplo, normalmente o absorvente noturno é usado durante o dia.

 

Mas toda essa precaução não impede o maior imprevisto já previsto de todos, talvez a maior preocupação quando se está menstruada: va-za-men-tos.

Aliado das que sofrem com esse incômodo chatão é o absorvente interno. De diferentes tamanhos para diferentes fluxos, promete horas de proteção sem acidentes. Mas existem alguns riscos do uso por muito tempo, já que ele “chupa” todo o sangue e mantém o canal vaginal úmido e abafado, podendo causar infecções.

 

“Gostaria muito de saber usar o coletor para aproveitar e entender ainda mais o ciclo.” Ana*.

 

Para além dos absorventes que já conhecemos, existem outros jeitos de se manter confortável, limpa e seca durante a menstruação. O coletor menstrual ficou mais conhecido graças a um vídeo da youtuber Jout Jout. Com uma proposta ecológica, já que gera menos lixo, ele pode ser usado durante 12 horas e depois você só precisa lavar com água corrente para colocar de novo. Algumas das mulheres participantes da pesquisa salientaram, inclusive, a importância da distribuição gratuita de coletores em postos de saúde.

Muitas relatam achar o coletor mais prático, mas, para quem prefere confiar nos absorventes de calcinha também existem opções mais amigas do meio ambiente: os absorventes de pano são bonitos, fáceis de limpar e reutilizáveis!

Quadrinhos: Carolina Ito/Salsicha em Conserva

 

Fluxos intensos, dores e TPM

 

Nem tudo são flores em um ciclo menstrual. Ele pode ser quase imperceptível para algumas mulheres, com nenhuma dor e poucos dias de sangramento, mas também pode representar a pior semana do mês para muitas outras.

 

“Para mim, a menstruação significa muita alteração nada agradável no organismo: fortes dores em todo corpo, especialmente nos seios, nas costas, nas pernas e cólicas; inchaço, retenção de líquido; alteração de humor, variando entre forte irritabilidade e muita tristeza; desânimo, falta de disposição para fazer qualquer coisa, inclusive tendo queda no rendimento criativo, déficit de atenção e concentração… Enfim, passo por tudo isso por cerca de DEZ dias por mês TODOS os meses. Não sou adepta das opções medicamentosas para amenizar os sintomas, por conta das outras consequências terríveis que o uso excessivo de medicamentos pode ter. Mesmo tentando manter hábitos saudáveis de alimentação e fazer exercícios, menstruação para mim sempre significa todo aquele sofrimento. Nos dez dias eu mal me reconheço. E isso significa um terço da minha vida (fértil)!!! É muito tempo. É muita coisa. Eu acho que a gente tem muito que refletir ainda para compreender a respeito do impacto que é ser um ser que menstrua.” Matilde*.

Dados: Pesquisa Labrys/Arte: Flávia Gândara Simão

“Só remédio na veia faz minhas cólicas e dores menstruais pararem e, por mim, removeria meu útero, mas infelizmente é impossível para uma mulher de 49 anos sem filhos fazer isso, até mesmo mais velha, acredito que tal cirurgia só possa ser realizada por motivos considerados mais sérios.” Joana*.

Em nossa pesquisa feita no Facebook e mostrada acima, 32% das mulheres afirmaram que quanto mais cedo a menstruação acabar, melhor. Para 11,4% delas, menstruar é horrível. Cada organismo tem suas particularidades, mas a presença de fortes dores e outros sintomas quase insuportáveis na menstruação podem caracterizar um quadro de endometriose.

 

“Endometriose é uma doença em que partes do endométrio adere as regiões em volta do útero, como intestino, ovários, bexigas e outros possíveis órgãos. Então,quando o endométrio descama na menstruação ele adere nas outras partes.” Taís*.

 

Dores fortíssimas que causam gritos, choros, enjoos, febre, tontura, queda de pressão, fraqueza e anemia, são alguns dos sintomas da endometriose além do fluxo intenso.

 

Apesar de cerca de 10 milhões de mulheres serem afetadas pela doença só no Brasil, um fator que impede o início do tratamento logo nos primeiros anos de menstruação é a dificuldade de obter um diagnóstico. Tatiana* em seu depoimento conta que passou 10 anos de consulta em consulta para saber o que estava acontecendo – só recentemente conseguiu.

 

Uma casa aberta às mudanças

 

O ciclo menstrual pode mudar durante o decorrer da idade fértil de uma mulher. Ele pode ser mais irregular logo após a menarca, a primeira menstruação, pode se manter mais espaçado ou mais “certinho” em 28 dias… Lá pela meia idade tudo se encaminha para a menopausa.

Arte: Flávia Gândara Simão

Texto: Bibiana Garrido e Flávia Gândara Simão

Flávia Simão