Uma reação a “Os 13 Porquês” por quem já pensou em suicídio

[ Atenção: Esse texto pode disparar gatilhos emocionais em pessoas que já sofreram bullying, lesbofobia, abusos psicológicos ou abuso sexual. Os spoilers estão somente no fim do texto ]

A nova série da Netflix, “Os 13 Porquês”, gira em torno da adolescente Hannah Baker e o que a fez colocar fim a própria vida, incluindo 13 pessoas que seriam seus motivos para isso.

Para quem convive com a depressão, a crise de pânico e de ansiedade, esse tipo de assunto pode ativar o que chamamos de “gatilho”, ou seja: pode provocar reações que levam às pessoas a retornar às profundezas dessas doenças.

Mas bem, eu assisti.

De início, a ideia em si me agradou. Os episódios tem narrativas intensas, bem construídas, cruas e fiéis a realidade. Não dá para ignorar esse fato. As histórias mostradas na série podem ser reconhecidas por praticamente qualquer estudante, esteja ele nos Estados Unidos ou no Brasil. E de início, uma coisa me chamou atenção: pouca gente falou sobre a misoginia que a personagem sofre ao longo de toda a adolescência, e como isso influenciou significativamente na sua ação.

Hannah Baker não cogita o suicídio de uma hora para outra.

Ela não decide por ele, simplesmente. Ele vem ao seu encontro, depois de uma série de violências machistas constantes, insuportáveis, gigantescas e estarrecedoras, que transformam totalmente o rumo da sua história.
E sim: nós precisamos falar (muito) sobre o suicídio.

Por que adultos, adolescentes e crianças cogitam o suicídio? Não existe uma resposta concreta e imutável para isso, mas não é preciso ir longe para saber que episódios de violência que as pessoas passam ao longo da vida podem influenciar o agravamento da saúde mental e torná-lo uma possibilidade.

De acordo como Mapa da Violência, no Brasil houve um crescimento de 40% da taxa de suicídio entre crianças e pré-adolescentes com idade entre 10 e 14 anos. Na faixa etária de 15 a 19 anos, o aumento foi de 33,5%. A OMS afirma que o suicídio já mata mais jovens no mundo todo do que o HIV. No mundo inteiro, uma pessoa se suicida a cada 40 segundos, de acordo com a OMS. E o Brasil é o oitavo país com os maiores números desse problema.

Suicídio não é fraqueza, não é covardia e nem é frescura.
É difícil de entender porque não tem contornos claros. Pode ser uma ação tomada de forma premeditada, como pode não ser. É um tabu que precisa ser debatido porque, de certa forma, muitos de nós pensamos em suicídio.

É preciso quebrar o medo e a vergonha de assumir isso.

Quantas vezes você já não se pegou pensando que queria acabar com tudo, que não tinha mais motivos para seguir, que as dificuldades eram imensas? E mesmo assim, pode ser que esse tenha sido apenas um pensamento corriqueiro, e não exatamente o desejo de tomar uma atitude.
Vivemos em uma sociedade doente que nos adoece, que torna cada vez mais palpável a visão de que o suicídio é uma solução.
(spoiler: não é.)
(se você acha que é, esse é um dos sinais que demonstram que é preciso procurar ajuda.
clique aqui.)


E isso me trouxe aqui.

Tal como Hannah, sempre fui vista como uma pessoa dramática, cheia de problemas.
E a primeira vez que eu pensei em suicídio era ainda uma adolescente.

Tal como Hannah, eu não me encaixava. A série romantiza um pouco essas situações — essa é uma de suas problemáticas — , como se ela fosse simplesmente “esquisita e diferente”. E na verdade, ela estava sofrendo.
Bom, no meu caso, o problema era um pouco mais complicado. Eu sou lésbica. E é fácil dizer isso agora, aos 23 anos, formada em Jornalismo, trabalhando e pagando minhas contas. Mas aos 13, era simplesmente impensável.

Às vezes a gente olha os adolescentes como bombas de hormônio que estão sempre exagerando em todas as suas reações, e esquece de olhar para eles como seres humanos enfrentando um dos períodos mais cruéis de suas vidas. Então, com 13 anos, eu sabia que tinha alguma coisa “errada” comigo. Todas as minhas amigas pareciam normais. Elas falavam sobre garotos, beijavam garotos, se apaixonavam por garotos, e estava tudo bem. Mas eu não. Minha família, como outras várias, é 99% formada por casais heterossexuais. Na televisão, na escola, em todos os lugares essa era a norma a ser seguida, e pra ser honesta eu não sabia exatamente o que estava errado. Era uma dúvida angustiante. E gostaria que as pessoas entendessem que eu me sentia como um fantasma. Vocês já pararam para pensar como é ser invisível, e ao mesmo tempo, vazia por dentro? Era essa a sensação. Como se minha existência não tivesse qualquer significado, já que eu não sabia quem eu era, o que eu era, e o que estava acontecendo comigo.

Quantas de nós não nos identificamos com Hannah Baker?

Eu não sei se vocês fazem ideia do que é ser uma adolescente lésbica em um mundo heterossexual e violento. Nem eu fazia. Meu primeiro beijo foi em um garoto, e foi horrível. Depois, outros beijos e outros relacionamentos vieram, e era sempre uma sensação descontente e insatisfeita. E eu voltava pra casa como um fantasma. Me trancava no quarto, me isolava, tratava mal meus familiares — afinal, eles nunca entenderiam. Nem eu entendia. Era uma mistura de desconsolo, mágoa e inquietação que me agredia psicologicamente. E eu me sentia tão triste, mas tão triste, que cogitei a não-existência por algum tempo.

E aquela ideia parecia fazer sentido.

O suicídio é um tabu porque, entre outras coisas, é visto como uma forma covarde de resolver a sua vida. Mas chamar um propenso a suicida de covarde é alimentar mais ainda esse ciclo de violências. Suicídio não é covardia. É como um ato final de desespero.

Imagine você, sofrendo uma violência silenciosa e inconsciente, que está em todos os lugares. É como se o monstro debaixo da sua cama tivesse tomado forma e se transformasse em todas as pessoas que passam pelo seu caminho: nos seus pais descontentes, na sua professora preconceituosa, nos seus amigos heterossexuais, nas pessoas da rua que te olhavam feio. Sabe aquelas cenas de filme de terror em que você corre descalça em um corredor escuro, suando e tateando as paredes, tentando encontrar uma luz, sabendo que se parar, a escuridão vai te engolir, e sabe-se lá quais demônios vão te alcançar? Era minha sensação diária.

Até que um dia eu voltei cansada da escola.

Não sei bem explicar como foi e nem porquê. Como eu disse, nem sempre é uma ação planejada meticulosamente. Às vezes apenas vem ao seu encontro. E o cansaço psicológico era tão grande, e a tristeza, e o silêncio, e a dor. Invejei a vontade de ver tudo quieto e calmo. Avistei uma caixa de remédios no balcão da cozinha, peguei um de cada, mais de 10 diferentes. Coloquei em um copo, peguei outro copo com água, fui até o meu quarto. E desabei, num choro descontrolado, enquanto olhava para aqueles comprimidos e sua promessa de me transportar para um mundo novo onde as coisas não precisassem doer tanto.


Para cada caso fatal de suicídio existem outras 20 tentativas fracassadas.

Eu não tomei aqueles comprimidos, por diversas razões que nunca vou lembrar. Mas continuei machucando a mim mesma durante quase um ano.

O que a 13 Reasons Why me provocou, de início, foi o retorno aquele dia e a todos os outros dias em que fui vítima de violência. É um seriado incômodo. Angustiante. Dá pra notar a personalidade de Hannah mudando conforme ela sofre. É um espelho. Mostra uma sociedade doente, que normaliza o machismo, e principalmente, que não sabe como tratar e como lidar com jovens que estão passando por sofrimentos psicológicos. Muitas cenas poderiam ter sido melhor desenvolvidas (como quando Skye Miller diz que “suicídio é para os fracos”), e em vários outros momentos sobram alguns “sensos comuns” que deixam a entender que “suicídio é frescura”.

A ação — aquilo que implica em tomar uma atitude, que foi o que Hannah fez — , provém da violência. No caso dela, provém do sofrimento de ter sido vítima de misoginia durante toda a sua adolescência.

“A morte de uma adolescente é tratada como consequência de condutas individuais, o que situa a questão apenas no campo moral — excluindo as questões sociais, políticas e estruturais envolvidas”. Daniela Lima.

Em última instância, todo suicida é uma vítima de uma sociedade doente.


*Contém Spoiler*

As problemáticas da série são várias:

  1. Existem algumas coisas que precisam ser levadas em consideração:
    Hoje, eu tenho uma família que me apóia. Sou assumida. Tenho alguns amigos. E faço tratamento psicológico. Pode ser que, para a imensa maioria da população que não goza desses privilégios, a série seja realmente problemática de se assistir sozinha. O simples fato de estar em tratamento já altera significativamente minha reação ao seriado. Então, se você ainda está enfrentando esses problemas (ou outros), talvez ela não seja bem-vinda.
  2. Ela individualiza algumas questões, colocando 13 pessoas como as responsáveis por tudo, quando na verdade, algumas dessas pessoas também reproduziram violência como uma forma de se defender. Courtney, por exemplo, é vítima de lesbofobia. Jessica machuca a amiga porque a considera uma “vadia”. Essas duas mulheres repetem exatamente o que uma sociedade machista faz com elas. A misoginia, eu diria, é a maior responsável pelo suicídio de Hannah. E os abusos psicológicos, depois físicos, e por fim sexual que Hannah sofre, encerra definitivamente sua chance de se reerguer.
    (mas é meio óbvio que você pode fazer a sua parte “não sendo um motivo”, e a abordagem nesse sentido foi bem interessante)
  3. Além, é claro, da aterrorizante cena em que ela é abusada, que dura vários minutos desnecessários, reproduzir com detalhes a cena do suicídio foi o maior e mais perigoso problema da trama. É o famoso efeito cascata: não se mostra para alguém que tem tendência a se machucar como ele deve se machucar. E aqui, a 13 Reasons Why foi extremamente irresponsável. Milhares de jovens e adultos encontram o entretenimento por mil razões, e em uma sociedade tão ferida, esse tipo de demonstração pode levar a casos irremediáveis.
  4. Por fim, eu não recomendaria a série para quem tenha tendência a depressão, crise de pânico, ansiedade, vítimas de bullying ou de abuso sexual. Mas talvez ela seja uma boa opção para se usar em discussões com profissionais e estudiosos da saúde mental, com responsabilidade e analisando cena por cena. É muito importante conversar com adolescentes sobre suicídio, e sobretudo, com o acompanhamento de um psicólogo.
  5. Diria que o pensamento sobre suicídio é como uma unha encravada que sempre volta. Às vezes você esquece que está ali. Outras vezes, sem motivo nenhum, ele recomeça a doer e você se lembra. Em outras vezes, você machuca aquela área, a incomoda, e ele retorna doendo mais do que nunca. Pode ser que para muitas pessoas, a série dispare exatamente essa última sensação.
  6. Se você também se sente assim, procure ajuda.
    Centro de Valorização da Vida: www.cvv.org.br ou ligue 141.
Thamires Motta
Jornalista introvertida. Sapatona convicta. Vezenquando poeta, fotógrafa e tudo aquilo que a vida me permitir ser. Meio insegura, meio corajosa. No fundo, no fundo, só muito ansiosa para mudar o mundo.